A Andreia usa o ginásio como outras pessoas usam o palco.
A maior parte das mulheres entra no balneário e passa pelas mulheres nuas como os homens passam pelos lineares do supermercado: repara só no inevitável, querendo sair dali o mais depressa possível, mesmo sem saber porquê. Cria uma bolha mental à sua volta, abre um cacifo e equipa-se rapidamente.
Mas a Andreia prepara-se como se a sua performance dependesse completamente do outfit. Como se já houvesse ali muitos espectadores.
Tira a camisola, tira o sutiã, veste outro sutiã, veste a t-shirt. De cada vez que veste uma peça sente um clique no corpo, como acontece com os mecanismos de encaixe, e sacode o cabelo num gesto de determinação. Repara no corpo das outras mulheres como os homens conferem as contas do mês.
Ancas demasiado estreitas, nádegas flácidas, pele demasiado branca, bela cor de cabelo, qual será a marca da tinta? mamas demasiado grandes, ai quando for velha, aquelas é que são firmes, queria ver se já tivesse um filho como eu, nunca consegui arquear os pés daquela maneira, tenho de fazer um piercing como aquele, que horror tantos pêlos, varizes é a pior coisa que há, não faças abdominais não, não entendo os homens que gostam de mamilos grandes.
Ancas demasiado estreitas, nádegas flácidas, pele demasiado branca, bela cor de cabelo, qual será a marca da tinta? mamas demasiado grandes, ai quando for velha, aquelas é que são firmes, queria ver se já tivesse um filho como eu, nunca consegui arquear os pés daquela maneira, tenho de fazer um piercing como aquele, que horror tantos pêlos, varizes é a pior coisa que há, não faças abdominais não, não entendo os homens que gostam de mamilos grandes.
O corpo da Andreia é perfeito. Graciosamente, tira os sapatos, tira as calças, tira as cuecas, tira as meias, veste outras meias, veste outras cuecas, veste os leggins, calça as sapatilhas. Prende o cabelo. Aconchega o peito no sutiã e abre um pouco o fecho do decote. Pega no i-pod, na garrafa de água e na toalha e sobe para a sala de manutenção.
Sobe as escadas a pensar no que o amigo lhe dissera, enquanto se ria dela: "Tu não mereces o teu mundo interior, essa é boa!"
O que raio queria o Miguel dizer com aquilo?
A Andreia percorre a sala com todo o corpo erguido, os olhares convergem para o peito redondo, firme, cingido na abertura da t-shirt vermelha. O olhar dos homens comanda-lhes o pescoço, que roda tal qual girassol, e depois de ver a Andreia de lado desce um pouco para se fixar no rabo.
Tanta tonificação!
Outros fazem o contrário, porque a vêem de costas, e sobem os olhos de tal forma descarados que acabam num pasmado olhar frontal. A Andreia sorri. Sorri também para as mulheres, como quem atravessa o corredor entre a plateia para chegar ao palco, mas as mulheres não retribuem.
Tanta tonificação!
Outros fazem o contrário, porque a vêem de costas, e sobem os olhos de tal forma descarados que acabam num pasmado olhar frontal. A Andreia sorri. Sorri também para as mulheres, como quem atravessa o corredor entre a plateia para chegar ao palco, mas as mulheres não retribuem.
Sobe à passadeira e põe os auscultadores. Andar, três minutos, seis quilómetros por hora. Play.
Só porque lhe conto dos meus pesadelos. Mas realmente quem é que sonha com peixes em forma de pé a sobrevoar a Índia? Mas que raio quererá isso dizer? E que raio é isso do mundo interior? Porque se riu assim de eu achar que não o mereço?
A Andreia corre meia hora a nove quilómetros por hora. Todos os dias. Diz que gosta da sensação do corpo a aquecer e tornar-se máquina, ritmicamente perfeita, sem pensar em nada. Olha as televisões mudas ao fundo da sala e aumenta a velocidade para corrida.
Será porque a dormir estarmos fechados dentro de nós próprios?
O corpo da Andreia aquece, o ritmo do passo a desenhar uma curva precisa e repetida mecanicamente, como um baloiço muito rápido. A sola vermelha das sapatilhas forma um arco na ilusão dos olhos.
Mas ele disse isso quando eu disse que não entendia estes sonhos e que não os merecia, de tão estranhos. Na net, a interpretação dos sonhos não me dá nenhuma explicação satisfatória. Voar é liberdade, peixes é tranquilidade, pés é um parente próximo, ou ao contrário, já não sei. Em que é que isso ajuda? A Índia ainda percebo, eu sempre quis ir à Índia."
O corpo da Andreia sua, surge um brilho e um rubor na cara, depois gotas de suor a escorrer pelos seios e manchas negras que se vão formando ao longo das costas. Arreliada com os seus pensamentos, aumenta a velocidade para dez quilómetros por hora.
Mas ele insiste que eu devia explorar o meu mundo interior. E se o mundo interior é aquilo da loucura de que o Beto às vezes fala? A fronteira que se passa e da qual não se volta? O Miguel não deve ser meu verdadeiro amigo.
A música acelerada entusiasma-a e aumenta a velocidade para onze quilómetros por hora.
Ele queria era que eu enlouquecesse para poder dormir comigo. E eu queria era dormir descansada sem me lembrar de nadinha ao acordar.
Ao fim de doze minutos, começam a surgir-lhe manchas de suor no peito e nas nádegas, e deixa de conseguir respirar pelo nariz. A pele vai-se tornando líquida como a superfície da água, os pêlos loiros minúsculos acumulam gotículas de suor e salientam as curvas dos ombros, do peito, dos seios, da barriga, como se o pescoço estivesse a derreter em forma de mulher.
Também pode ser qualquer coisa filosófica, que ele sempre foi muito dado às psicologias. Deve pensar que eu não penso que chegue! Amanhã vou pesquisar online.
Aumenta a velocidade para doze quilómetros por hora. O mundo interior da Andreia começa a ter alguma dificuldade em acompanhá-la. O ritmo cardíaco sobe para cento e oitenta, mas ela nem repara. Pinga do queixo, tem manchas de suor no meio das pernas, nas costas, nos tornozelos. Os mamilos pulsam com o esforço e marcam o ritmo dos braços. A Andreia, com as suas mãos finas de unhas vermelhas, leva a toalha ao rosto, bebe água e aumenta a velocidade para treze quilómetros por hora.
Todas as noites a sonhar com coisas esquisitas, pesadelos atrás de pesadelos, o que é que eu fiz para merecer isto? A verdade é que não quero mundo interior nenhum, seja lá isso o que for!
A passadeira faz um som estrondoso a cada pousar de pé e chama ainda mais a atenção para aquele corpo ondulado por onde descem incontáveis gotas brilhantes. Os homens não conseguem desviar os olhos. Ela sacode o cabelo e empina o nariz. O suor pinga do nariz.
Devo ser burrinha, ou anda a gozar comigo, esse traste. Com linguagem toda rebuscada a provocar-me assim! E a rir-se de mim! O meu mundo interior queria ele!
Aumenta a velocidade para treze quilómetros por hora. O mundo interior deixa de conseguir acompanhá-la e fica para trás, a Andreia torna-se simples máquina em alta velocidade, sem pensar em nada. Gosta da sensação de descontrolo e aumenta para quinze quilómetros por hora. Ofegante, ao fim de uns minutos, cai. Uma pequena mancha de sangue pende-lhe da testa que embateu no braço da passadeira e confunde-se com a t-shirt.
No dia seguir a Andreia acorda sem mundo interior. Sem consciência de si, um corpo mole que é uma máquina que pensa mas não tem memória. O Miguel está ao seu lado, no quarto do hospital. A Andreia pergunta-lhe quem ele é.
- Sou o Miguel.
- Não me lembro de nada.
- Quando voltares a acordar vais-te lembrar.
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