quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ensonamento

Eu posso ficar calada e garantir que o fiz por precaução ou mágoa ou distracção ou generosidade ou cálculo matemático ou amor. Posso guardar todos os retalhos de realidade que vou tecendo em ínfimo pormenor para juntar quando chegares.
Pensarei: Eu é que sei.
E direi: Não sei.
E depois consoante a direcção e força do beijo tirarei do bolso um pedaço de coração ou um queijo.

Após uma directa a trabalhar no meio de loucos e algum sono diurno não admira que não me saia uma estrutura qualquer. Mas a mão ficou feliz de sentir o papel e quer escrever mais e eu pouso-a na folha e deixo-a ir. A escrita também pode espraiar, posso passeá-la de mão dada, dando-lhe trela, ou pelo menos com um olho de sobreaviso.
Como se desfaria a minha escrita se tropeçasse num degrau e caísse ou fosse atropelada na rua por um monovolume?
Meias palavras.
Disseram-me uma vez que eu me definia por dizer tudo por meias palavras. Será do medo que se lhes solte a ponta e desatem a correr em direcção à praia? Encontrar palavras na areia é tão difícil como encontrar agulhas num palheiro. Mais a mais hoje é o maior dia do ano e haveria muito por onde deixar as palavras perderem-se. Por exemplo no que resta da fina fatia de bolo de chocolate. Pedi só metade (lá está) embora o dono tenha trazido uma inteira e meio café. Que seria vinho se a realidade não se intrometesse na minha disfuncional refeição.
Na verdade o que me define é nunca alguém me ter abandonado. E aquele olhar meigo do meu pai que piscava para mim a meio das horrendas discussões com o meu irmão. Agora, sem a infância por perto, tudo é capaz de me pôr em causa. Um fado. As velhas da praia. Tu a chegares à minha beira com cenários rápidos sobre o meu mal-estar e um sorriso a rechear conselhos de coragem e determinação e um beijo fugaz adeusinho também gosto de ti.
Nem tempo houve para um trapo que eu tinha tecido.

Fico a ouvir a mesa ao lado falar dos sagitarianos como incorrigíveis exibicionistas. O dono da esplanada oferece-me mais bolos e o café e um desconto no que resta da conta e pede-me a cor dos meus olhos em troca. Falo-lhe do impedimento biológico e uso palavras caras mas ele vai fazendo perguntas e diz que precisa do meu trabalho.
Mais trabalho.
O que não passa de um tema, mas deixo-lhe o meu e-mail apenas para apoiar a astrologia e abandonar a esplanada com um generalizado e gratuito final feliz.

Uma pessoa pode fazer da outra aquilo que quiser. Pode até, se dominar de forma exímia as palavras e o espaço entre elas, matá-la impunemente.
Eu grito: onde está a outra metade das palavras? Quero definir com clareza como venho embora desolada com a superficialidade que basta para te convenceres que me compreendes. Mas se nem eu, farta de procurar, descubro onde está a outra metade das palavras, então como gostar de mim assim?
Assim como?
Como assim?



 
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