terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um silêncio como outro qualquer

Quando entraram no salão, Miriam estava sentada a ler. Levantou-se imediatamente e ficou impávida a vê-los chegar como se viessem em câmara lenta. Não os esperava, mas não se admirou que aparecessem naquele dia, premeditadamente juntos.
Cumprimentaram-na com sorrisos abertos, abraços fechados e beijos na testa. Um por um foram-se sentando nos sofás verdes e depois fizeram silêncio. Miriam sentou-se, observou-os atentamente. Uns estavam relaxados a apreciar a paisagem, outros de queixo apoiado franziam as testas reprovadoras, outros pensavam esforçadamente e abanavam a cabeça, outros fincavam olhos muito brilhantes de ansiedade nos olhos de Miriam. Após alguma hesitação, abriu o livro e continuou a ler. Alguém tossiu, alguém suspirou, alguém se ajeitou ruidosamente no sofá, como se faz ao silêncio das plateias.
Os cortinados gigantes davam ao espaço um ar solarengo, quente e abafado. O ar foi-se tornando espesso, tão espesso que complicava o folhear das páginas que Miriam lia. Aos poucos todos cravaram nela o olhar. Estava descalça, e a forma como os pés se arqueavam sobre o chão excitava os homens. As mulheres franziam os sobrolhos, o que espessava ainda mais o ar. Miriam experimentou ler alto:

Eventualmente paso días enteros sangrando
(por negarme a ser madre).
El vientre vacío sangra
exagerado e implacable como una mujer enamorada.

- CALA-TE! — berrou A.
Miriam calou-se.
Embora todos estivessem ali por razões diversas e com diferentes expectativas, todos tinham esperado um estado de espírito mais luminoso. B. era o único capaz de compreender este lado negro de Miriam, mas mesmo ele exigia uma explicação. Ela fechou o livro. Levantou-se como quem vai proclamar alguma revelação, todos se arranjaram nas cadeiras e prepararam para ouvir, braços e pernas cruzados para não perderem nadinha, Miriam entreabriu a boca, suspirou e voltou a sentar-se molemente no sofá.
C. reclamou:
- Não vais dizer nada?
- Nada que eu possa dizer vos faria compreender.
D. reclamou:
- Não tens outro recurso?
- Não.
Miriam pousou os pés no sofá e encostou o queixo aos joelhos, continuou a ler. A nudez dos pés era tão suave, a pele tão branda que não pareciam feitos para pisar o chão. Os homens distraíram-se um pouco pelo seu imenso vestido florido, as mulheres ficaram impacientes. Miriam tentou apaziguá-las:
- Posso ler mais um pouco.
- NÃO. — reclamou E.
B. levantou-se e segredou a Miriam algum encorajamento convincente. Ela olhou a plateia com alguma amargura, endireitou-se no sofá, fechou por três segundos os olhos e suspirou, pousou as mãos sobre o colo e tentou:
- Eu… — e calou-se.
Dum canto do salão ouviu-se um berro:
- Uma mulher tão eloquente!
F. acrescentou:
- Tanto desprezo pelos que só lhe querem bem. É condenável, condenável!
Esta acusação inflamou os presentes, que se levantaram e começaram a dar voltas descontroladas sobre o soalho. Miriam lembrou-se então de servir chá para desanuviar. Enquanto enchia as pequenas taças de porcelana com o líquido rosado apenas se ouvia o ruído do fio de chá a afastar-se da chávena à medida que ia sendo servido. O som repetitivo endoideceu E., que avançou sobre Miriam, agarrando-lhe o longo cabelo e torcendo-lhe o pescoço, gritando  "INGRATA INGRATA" vezes sem conta, como uma boneca avariada. Todas as outras mulheres se lhe foram juntando numa gritaria que não se percebia se era para resolver ou agravar o assunto. Mas Miriam conseguiu desprender-se e foi sentar-se de novo no sofá.
- Nem lhe ocorre ao menos fugir daqui? — reclamou C.
- Miriam, nós todos merecemos explicações da tua parte. Cada um a sua. Se preferes o sigilo de ser um de cada vez podemos organizar-nos, eu sorteio uns papelinhos para definir a ordem pela qual nos atendes e esperamos lá fora.
Miriam desatou a ler o resto do poema numa voz tão alta que equivalia a um silêncio:

No alimentaré a nadie con mi cuerpo
para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo.

Por eso sangro y tengo cólicos
y me aprieto este vientre vacío
y trago pastillas hasta dormirme y olvidar
que me desangro en mi negación.

- Está louca! — reclamou G.
D. aproximou-se, colou o olhar de censura ou desilusão ou ódio ou desprezo no olhar de Miriam e depois saiu pela porta fora.
- Está louca. — sussurrou ainda F.
Miriam fechou os olhos. Os presentes sentaram-se de novo nos seus lugares e assim permaneceram alguns minutos muito pensativos. Depois foram-se retirando de uma forma ainda mais lenta do que aquela em que tinham entrado. Miriam de olhos cravados no livro folheou a custo uma página. Antes de sair, B. abriu um dos janelões.

 
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