segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nunca suficientemente perto

Margarida já não via Gonçalo há alguns meses. Relação subterrânea, viam-se pouco. Sabiam pouco um sobre o outro, embora houvesse uma qualquer fé cega que os tornava instintivamente cúmplices. Nunca íntimos, mas sempre cúmplices. Falavam pouco, para além das reuniões viam-se por vezes na ruas, nas revistas, em cafés, em festas, ao longe, diziam olá, sorriam e ficavam felizes por saberem que o outro ainda estava por aí, por perto, embora não perto, nunca suficientemente perto.
Encontraram-se por acaso numa esplanada pouco soalheira nos arredores da cidade, sítio tão imprevisível que se olharam em interrogação pensando como era possível não fazerem ideia de que podiam encontrar-se ali, conhecerem-se tão pouco. Saberem tão pouco do quotidiano um do outro, que para boa parte das pessoas é definição do conhecer.
Gonçalo estava a lanchar com a sua filha de cinco anos. Por alguma razão que não iria ser indagada, a sua mulher não estava ali. E por outra qualquer razão também Margarida não vinha na companhia do seu marido. Sentou-se sem que houvesse troca de palavras, um beijo na face apenas. Dela nele, claro, esta relação depende da aceitação desanuviada do fio inquebrável que os une sem que algum dia deus lhes dê o direito de saber porquê. As mulheres aceitam isso melhor que os homens, e por isso é ele quem recebe o beijo.
A filha de Gonçalo chama-se Violeta. Enquanto mastigava o croissant, olhava fixamente Margarida. Apresentaram-se:
- Violeta, que nome bonito! E olha, é o nome de uma flor, como o meu.
Violeta empinou-se sobre a mesa num ímpeto de determinação infantil:
- Mas o teu não é também o nome de uma cor!
Margarida riu-se do atrevimento:
- Pois é. Mas as margaridas podem ser de muitas cores, e as violetas são sempre violetas. Não é assim?
Violeta amuou, sentou-se de novo encolhida na cadeira e acenou afirmativa com a cabeça.
- Gostas muito da cor violeta, Violeta?
- É a minha cor preferida.
- Então estás cheia de sorte, eu todos os dias tenho de escolher uma cor que me sirva, que esteja mais de acordo com o meu estado de espírito, entendes? Tu ao menos podes contar sempre com a amizade fiel da tua cor.
- Pois é.
E a Violeta olhou para o pai, à espera de aprovação que a deixasse inchar-se de orgulho de novo. O pai fez aquele sinal de cabeça quase imperceptível típico dos pais, quando autorizam algo aos filhos sem que se note muito, para que os filhos se sintam donos da sua vontade e acreditem assim na liberdade que ainda não têm. Violeta ficou de novo radiante e perguntou:
- De onde é que conheces o meu pai?
- Do trabalho. Trabalhámos juntos há uns anos.
- O que é que tu fazes? Também és publicitária?
- Sou dona de uma empresa de vinhos.
- Eu nunca bebi vinho.
- É normal, o vinho é uma coisa de adultos. Eu só comecei a beber quando já tinha vinte e dois anos.
- O meu pai bebe muito, a minha mãe diz que ele às vezes bebe demais e nunca me deixa estar com ele quando ele faz isso.
Margarida olha Gonçalo à espera de qualquer sinal imperceptível mas ele não surge. Gonçalo tem o olhar fixado na chávena do café e não o move por nada.
- E ficas com saudades do teu pai nesses dias?
- Fico. E quando ele chega muito tarde do trabalho também.
- O teu pai trabalha muito.
- Tu já viste o meu pai quando ele bebe muito vinho?
- Já. Os adultos de vez em quando bebem muito vinho, é uma coisa que os adultos gostam muito.
- E porque é que eu não posso vê-lo? A minha mãe diz que ele fica muito cansado. Mas isso é o que ele diz quando chega tarde do trabalho. Os adultos estão sempre cansados!
Margarida rui-se, Gonçalo também mas num riso preso, artificial. Aquilo estava a tornar-se-lhe demasiado insuportável. Margarida nunca tinha sabido nada da sua biografia, nem sabia o nome da filha, não perguntava pela família, não sabia dos nascimentos e das mortes, das doenças, das sortes, nenhum dos dois queria saber desse nada, dessa coisa tão aborrecida que é a rotina e as suas interrupções. Tudo o que Margarida e Gonçalo sabem um do outro é da esfera do corpo, do seu movimento e do seu peso, da química que se solta quando dançam depois de uns copos a mais. Do entendimento absurdo que há quando não falam e da inacreditável escassez de palavras que são necessárias para que se compreendam e se vertam inteiros um no outro. Eles não sabem nada dos círculos que compõem a vida do outro porque eles só se conhecem no cerne, na pulsão, na mais livre e impetuosa manifestação, essa que não admite contexto. Sempre que o trabalho lhes admite que fujam ao contexto.
Mas agora era a própria filha a levar-lhes a memória para as festas em que dançam juntos no cúmulo da cumplicidade, embora sem intimidade alguma. Gonçalo levantou-se, ia tirar do bolso a carteira para acabar com aquele lanche antes mesmo de ter uma desculpa viável. Margarida interrompeu-o:
- Ainda não acabaram de comer, Gonçalo.
- Está bem, mas vamos indo.
- Não.
- Porquê?
- Porque és pai.
Gonçalo voltou a sentar-se, com o peso de toda a sua vida nas pernas. Margarida disse a Violeta:
- Tu nunca te cansas, Violeta?
- Só quando brinco demais.
- Eu achava que não era possível brincar demais. Nós adultos temos tantas saudades disso...
- É por isso que bebem vinho?
- Talvez. O teu pai brinca contigo?
- Brinca, sempre que tem tempo. Eu gosto de brincar com o meu pai. Eu queria que ele trabalhasse menos. Tu também trabalhas assim muito?
- Eu também, mas eu não tenho filhos que façam saudades quando eu não estou.
- Não tens filhos porque tens muito trabalho?
- Sim.
- Mas se tu tens uma empresa de vinhos e o meu pai é publicitário como é que vocês trabalham juntos?
- Tu sabes o que é um publicitário?
- Sei.
- Como é que aprendeste?
- O meu pai explicou-me. Ele é escritor de publicidade.
- E sabes o que são clientes?
- São as pessoas que compram coisas nas lojas.
- Sim, é mais ou menos isso. No caso do teu pai, ele tem uma espécie de loja de publicidade e os clientes vão lá e compram-lhe ideias que depois vês na rua ou na televisão.
- Sim, eu sei. Eu vejo muitos anúncios do meu pai na televisão. Mas depois ele diz que não fez nada daquilo, que só teve a ideia e escreveu. Então porque é que ele trabalha tanto?
- Tu já sabes escrever?
- Sei, o meu nome.
- E escreves com caneta azul?
- Sim. Porquê?
- Não devia ser uma caneta violeta?
Riram-se os três. Gonçalo estava desfeito de paixão e decepção. Via em Margarida a mãe que sempre quis para a Violeta, a mãe que a sua mulher não era, e não sabia se era pior aguentar isso ou aquela visão maternal numa mulher que sempre vira como potência sexual.
- Bem, Violeta, quando souberes escrever vais perceber melhor. Parece fácil mas não é. Há muitas pessoas que morrem achando que sabem escrever só porque andaram muitos anos na escola mas na verdade não sabem. Os clientes do teu pai não sabem escrever tão bem como ele sabe e então ele escreve por eles. E assim ajuda-os a mostrar e a vender as coisas que eles vendem às pessoas.
O pai enterneceu-se com uma explicação tão afável e sentiu o ego crescer. Com o ego cresceu-lhe também a carne, que este homem na presença desta mulher não distingue o corpo do resto. Mas Violeta, que estava pensativa, interrompeu:
- O meu pai escreveu para te ajudar a vender vinho aos adultos?
Era um pergunta simples, mas continha toda a brutalidade que só as crianças sabem dar às coisas simples. Margarida percebeu nesse preciso momento, arrebatada, que não tinha um lugar naquela família. Não devia tê-lo. Nem sequer queria tê-lo, mas mesmo que quisesse, não poderia. Baixou os ombros:
- Escreveu.
- E tu vendeste vinho ao meu pai?
- Não, dei-lhe só algum para ele provar.
- Mas agora ele vai comprar mais, eu já sei.
- Estás a dizer que o teu pai escreveu para ele próprio?
Era um pergunta simples mas com um raciocínio adulto. Violeta não entendeu esta pergunta. Para um redactor esta é a melhor forma de criar: conhecendo bem o produto e ainda por cima gostando muito dele. O entendimento entre o publicitário e o cliente faz-se a partir daí, do envolvimento mútuo com o produto e a marca. Mas este diálogo era agora entre Margarida e Gonçalo, que aproveitou:
-  Violeta, ainda tens de crescer mais para perceberes estas coisas todas do trabalho e dos adultos. Para já tens é de brincar. Vai lá apresentar o Óscar à senhora do bar. Não achas que ela ia gostar de o conhecer?
Violeta foi. Margarida tinha umas lágrimas rasas nos olhos. Margarida queria tanto ter um filho, ter uma filha como Violeta, a quem pudesse explicar o mundo. Mas Margarida é estéril. Gonçalo, claro, não sabe, não pode saber. Por isso estranha tanto aquela comoção, e no seu orgulho másculo acredita que se deve à inveja que Margarida teria feito por ele ter uma filha doutra mulher, de não ser ela a mãe do filho dele. Ou talvez aquela estranheza de ver nele um pai, as mulheres comovem-se por tudo por nada. Se o equívoco se desfizesse, passariam ali naquele instante a ser íntimos. Mas nenhum quer isso, ambos preservam sabiamente a magia que os une, que não se pode encontrar assim sem mais nem menos em alguém com quem nos cruzemos, às vezes nem na pessoa que é a pessoa da nossa vida, uma magia que uma vez encontrada tem de ser protegida contra ventos e tempestades, por mais que as intempéries se tornem da ordem do dia.
Despediram-se. Violeta nem quis saber de Margarida, lançou-lhe um olhar distante do balcão e continuou a sua conversa com a empregada. Margarida encostou a cara ao nariz de Gonçalo que, sem se levantar, hesitou em dar-lhe um beijo. Mas deu.




 
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