1.
Eu sonhei que cuidava do caminho que dá para ti, uma estrada asfaltada com dezenas, centenas de quilómetros. Eu percorri-a a pé para com as mãos a alisar, desfazer as covas, nivelar, tornar confortável e rápida, uma auto-estrada.
No sonho eu raspava a estrada com os dedos como quem raspa tostas queimadas com uma faca, e o asfalto castanho torrado ia-se sobrepondo na berma e a estrada ia ficando perfeita para chegar a ti.
Percorro já
para não percorrer ainda
o caminho que dá para ti.
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2.
Eu sonhei que te abraçava, um derradeiro abraço, aquele que se dá ao fim de uma infinda espera e onde se deita todo o corpo, em silêncio, no escuro dos olhos fechados, na força dos braços abertos, as mãos viajando sôfregas mas lentas do teu peito aos teus ombros e dos teus ombros às tuas costas e no lado direito das costas senti uma omoplata saliente, muito saliente.
Estremeci de estranheza, ainda no abraço mas sem que notasses.
Tu deste-te ao abraço, não me deste o abraço mas rendeste-te nele. Preso a mim de alguma forma, era como se te estivesses despindo e entregando por fim, abandonaste-te. E eu quis compensar-te com toda a beleza, com toda a impetuosidade do mundo. Deixei uma mão sobre o osso saliente, deslocado, um pega, uma asa. Contornei-a, macia e dura, apertei-a com os dedos, encaixamos tanto assim.
O teu corpo
a fingir-se alado para que
melhor preso ao meu.
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