sábado, 23 de março de 2013

Ofélia


Eu absorvo o melhor das pessoas e rasgo-me toda em chama para que se vejam ao espelho e quando a carne sara andam à procura do reflexo encantatório dentro de mim e dizem que se apaixonam por mim mas não chegam sequer a cheirar-me porque ninguém põe as mãos no fogo por si mesmo. Há quem tenha visto o seu mais bom fundo e pense que precisa de me possuir bem fundo. Porque não sabe o quanto arderia.

À noite sonho que nado num mar que se adensa como água quente em açúcar. Eu tiro o sal ao mar para que seja doce navegar. Sinto a água morna galgar-me o dorso: dedos que me cingem como se eu fosse pão. Mergulho num relâmpago de emoções: quando eu mergulho surge-me sempre na imaginação uma pessoa, um sentimento, uma dor, uma urgência do corpo que se solta no choque com a água. Nado sem medo de desaparecer. O mar ganha corpo até ao ponto de fio sem que eu me sinta queimar. Tento manter-me à tona da água e inicio um sonho dentro do sonho: boiar aqui é deitar-me na cama. Apanho água, junto os dedos molhados em movimentos rápidos e circulares e ao separá-los forma-se um fio: no sobressonho é um fio de sangue. Sobressalto e acordo uma vez. Antes de acordar de novo, saio da água e admiro o mar cinzento, com a sua espuma branca grossa borbulhando e as ondas desmaiadas, lento lento. Se ali permanecesse podia ter-me fundido nele: uma Ofélia morta perfeita segurando ainda as flores que lhe haviam enfeitado o cabelo, cantando em surdina para unir o corpo ao fundo do tempo.

A minha vida foi a engrossar-me até esconder o suficiente para não haver desperdício de palavras e agora uso as palavras com contenção porque as palavras são o meu sal. Fiquei espessa e opaca das cicatrizações e agora meço as pessoas pela força com que as suas palavras se agarram à minha memória porque já não sou sensível ao toque, porque é fundo que acorda o meu fogo, mais fundo que o fundo do mar.

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