E depois? Prepara-te… Ah sim, repito isto a toda a hora. Prepara-te. No entanto, desta vez não vai doer tanto. Desta vez eu aceitá-lo-ia como destino. É assim que a vida é, então. C'est la vie. Então é assim… Abano a cabeça refinadamente, apanho os pedaços, teço outro poema. Corto a minha cabeça e ando pelas ruas olhando para a cabeça com o meu umbigo. Esta é a minha cabeça e agora já não pertence ao meu corpo. Vou ver com o meu umbigo. Verei talvez como um cavalo vê… Em vez de acordeões abertos de ciúmes, em vez de ceptros de bobos. Aquilo é a June a descer a rua? Não, é uma garrafa de absinto. Isto é a Anaïs? Não, é uma hortênsia. O que vejo por baixo dos seus vestidos… Um sonho da tia Annie… Flores de madeira num copo de água, flores que abrem apenas em água. Abro o dicionário e, sendo um cavalo com apenas um umbigo, parece que algumas palavras falam. É um dicionário para cavalos. Não há no dicionário termos como "verdade", "lealdade", "justiça". Amor? Tu compra-lo em pacotes de papel aos japoneses, deixa-lo cair num copo de água. Amor é algo que só avança em água. Isto quer dizer que as bibliotecas têm de ser destruídas. Isto quer dizer que quando uma mulher se insinua entre as tuas pernas, é apenas para que se insinue uma serpente nas tuas entranhas.
Henry Miller, Carta de amor a Anaïs Nin


