A esta hora da manhã os sentidos não estão ainda despertos, mas eu gosto de aproveitar para descobrir novos significados nas coisas. Nos olhos tenho um rasto de sono que embacia os contornos. Os ouvidos sensíveis retraem-se às vozes mais agudas e o cheiro a poluição parece-me infestar toda a cidade. A cognição está sonolenta, também, é normal que não me sinta capaz de perceber coisas simples. Mas desta vez não é assim. Demoro todo o dia a perceber esta mulher, porque o que ela disse é demasiado simples.
- Um café curto, por favor.
O empregado parece acordado há meia dúzia de horas. Movimenta-se dum lado para o outro em passos muito curtos mas muito rápidos e concisos, no corredor estreito por trás do balcão. O movimento tão mecânico torna muito óbvio que a esta hora, neste sítio, só se pede café.
- E para a senhora também vai ser um café?
Esta mulher levanta o braço, baixa o olhar e sacode a mão em gesto de resignação:
- Não, para mim não. Eu não posso beber café, eu estou muito apaixonada.
Somos sete ou oito dentro do café, todos de pé porque a esta hora bebe-se café de pé, e rimos. É uma mulher com quarenta e alguns anos. Pele negra, anca negra, mamas negras e um corpo com uma força negra que parece capaz de mover o chão. Mas não é. Se fosse não estaria apaixonada. E enquanto rimos de pé, o empregado desperto comenta a felicidade de estar apaixonado, a amiga que pediu o café testemunha a amargura num sorriso e sussurra:
- Ela tem o filho longe.
O meu riso é puxado pelas sobrancelhas e torna-se um sorriso. Esta mulher diz:
- Ai e custa-me tanto! É tanta paixão neste coração que se bebesse café ele era capaz de rebentar!
Eu reparo no peso do corpo redondo desta mulher. Imagino uma dança africana de mãos estendidas ao céu e pernas ternamente ondulando para o chão. Lembro uma amiga que sabiamente disse: Não há sossego para o ventre, lugar onde passa a morar a alma de quem deu à luz.
A esta hora da manhã não compreendo o significado daquela paixão. Ninguém compreende, porque continua toda a gente a rir. Fazem uma conversa evasiva que já não ouço. No comboio viro-me para dentro, aborrecida com o estreitamento de todas as significações que este mundo superficial tem operado subtilmente. Sento-me ao computador onde crio marcas que fermentam essa deturpação e vou ao dicionário ver o significado de paixão. De todas as definições, que incluem "grande desgosto" e "amor ardente", detenho-me em "impressão viva".
Eu conheço pessoas que nunca estiveram apaixonadas. Uma pessoa que diz que nunca esteve apaixonada só pode nunca ter estado apaixonada. Eu conheço pessoas que sempre estiveram apaixonadas, talvez porque o coração bebe demasiado café. Hoje descobri que a minha mãe de sessenta e três anos deve estar apaixonada porque tem um filho longe. E hoje, ao contrário do que dizem os outdoors nas ruas, a cor da paixão não é o vermelho. É todas as cores vivas.
Eu tinha aprendido isto na catequese aos oito anos e demorei todo o resto da vida a desaprendê-lo. E esta mulher, que parece capaz de mover o chão com a sua portentosa carne mas não é, porque se fosse teria o filho perto, vem agora numa voz luminosa lembrar-me que a paixão é afinal um esgotante corroer de vida. Uma inflamação da alma. Que pode ser um martírio, uma fenda nos dias, uma morte consentida e louvada. Coisa que eu, que sou apaixonada pelas palavras, tinha já deixado escapar.
Terão sido as marcas?
Vou beber um café.
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