A mim interessa-me sobretudo o âmago das pessoas. Pouco me interessa a biografia onde tão raro vejo manifestar-se a essência. Interessa-me o resto, o que fica, a espuma. Para lá chegar, vou munida de coragem, sem medo das alturas nem do frio. Porque as pessoas têm pontes. E esta espécie de conhecimento é conhecimento vertical: mergulhando.
Hoje faço anos. Fiz uma viagem de comboio e saltei para o táxi que me atirou para outro comboio a caminho do Norte. Vejo-me no reflexo do vidro e a ruga da dúvida, afluente de pele entre as sobrancelhas, exibe-se, toda pomposa. Foi a primeira ruga a aparecer-me: porque duvido do que vejo, porque tento ver sem os olhos. Penso se terei duvidado mais do que ri e perco-me na dúvida anatómica.
Dum rio ao outro, faço um círculo: lembro o ano todo e descubro que no fim do curso é urgente visitar a nascente. O tempo é circular?
Nos últimos meses, mudei de emprego, de casa e de cidade. Tudo de forma controlada e sem me mover mais de 20km. Mas voltei assim a um princípio, e fiquei uns tempos desnorteada com o meu novo enquadramento, instintivamente isolei-me, fiquei virada para dentro. Felizmente o amor que me prende a algumas pessoas é elástico. E então elas começaram a solicitar-me, bateram-me à porta do corpo pelos olhos dos e-mails, pelos ouvidos do telefone, pelas surpresas à porta. Traziam saudades, reivindicações, carências, recordações. Surgiram todas, e todas elas, mesmo quando violentas, cheias de calor. É fácil assim saber quem fica e quem está apenas de passagem. É impossível e insuportável recomeçar. As águas vão simplesmente/ Presas à sua nascente.
Lembro-me de na idiota adolescência pensar no grande objectivo da existência e chegar sempre à conclusão de que ele estava nas pessoas. Pensava: vou dedicar-me à espécie humana da forma mais amadora possível: amando. Deve ter-se algum cuidado com as resoluções idiotas da adolescência. Não porque sejam insensatas mas porque sem querer se fazem cruzinhas no formulário do destino. Assinala-se com uma Cruz, Dulce?
A subtileza com que me chamaram quando eu comecei a fazer falta, atordoou-me. Não foram convites para jantar. Uma palavra, um instante, um beijo, um texto: aquele entreabrir de porta que a mãe faz para garantir que o filho está a dormir bem. Fiquei com o coração cheio como os pinhais. Deixo um rasto que é um fio que dá laços e dá nós?
O caminho do comboio está cheio de plumas nas bordas da linha. Durante muito tempo, sem saber como se chamavam, acreditei que as placas amarelas que anunciam "Perigo de Morte" se referiam a essas plantas e não aos postes electrificados. Plumas letais! Não me importava de continuar a acreditar nisto… ou que eram na realidade bambu, como também acreditei mais tarde, porque era uma coisa nova da qual se falava muito e nas fotografias os caules pareciam-se com aquilo, só podia ser aquilo.
O poder que as coisas têm antes de lhes darmos um nome!
Hoje sabe-se tudo, a magia da ignorância não dura mais que 0.28 segundos, segundo o Google. Há cada vez menos espaço para o conhecimento que vem do fundo da alma. Eu, ao envelhecer, escolho de novo a ficção: mais uma curva a tender para círculo. Regresso à infância, à ignorância infinitamente criativa, à liberdade absoluta de dominar a história.
Rendida à história, as palavras perseguem-me, assaltam-me, ameaçam-me. Usam-me como instrumento, ao meu corpo como instrumento sonoramente inventor. Se eu soubesse, submeter-me-ia sem reservas, enlouquecia. Que outro lado é esse de onde vêm as palavras cheias de fome? Que parte da história que invento é verdade? Que parte do que me dão é ainda verdade? É, ao menos, de verdade?
A minha primeira viagem de comboio foi tarde. Eu tinha uns sete anos e aquilo tornou-se urgente. Então os meus pais levaram-me a fazer Porto-Braga-Porto. No início foi arrebatador mas as três horas de viagem, no total, foram suficientes para eu me aborrecer de morte. Mais uma cruz no destino. Agora viajo de comboio tanto quanto viajo nos livros, porque estou longe da nascente. E porque lá, longe, há alguém que me prende numa verdade transparente, da qual não posso nem sei duvidar. Fazem-se então outras rugas. Uma das saudades — a saudade é que é a medida do coração —, outra da aventura, outra da desilusão, outra do espanto. Terei uma ruga para cada pessoa que me seja importante?
Ter as pessoas marcadas na pele, em vez da idade, porque não? Se me são estruturantes, que isso se manifeste no meu corpo. Que me marquem, que me cicatrizem. Mesmo que fiquem penduradas na minha vida por apenas uma palavra; uma palavra — de verdade — chega para ruga, trabalho da memória sobre a pele.
Será possível? Duvido.
Ao chegar à casa-mãe, está tudo na sua ordem muda: a paciência do cão, o cheiro da gata, os abraços, um trevo de quatro folhas, os pães na caixa do correio, o orvalho em todo o lado, o frio. Alguém que não vejo há muitos anos envia-me uma mensagem dizendo que mal chega Novembro se lembra de mim e conta os dias para me dar os parabéns.
É isto uma pessoa importante: um caminho que se cava no corpo, porque se afunda para dentro.
_
