domingo, 9 de dezembro de 2012

Riso de pés


Chamaste-me para uma dança com aquele movimento clássico de convite, o joelho flectido e a mão estendida. Automaticamente surgiu-me na memória a imagem do meu primeiro namorado, quando todos éramos ingénuos, chamando-me para a dança primeira. Como não te conheço tento avaliar pelo teu corpo a intenção do convite. Mas aos cinquenta e cinco anos já não dá para distinguir a paixão, os sinais estão perros: os joelhos já não dobram como dantes, os braços nunca parecem ondular, já não sei se esse movimento pedido é avassalado de desejo ou apenas gentil. Agora tenho de reger-me pelo calor e pelo olhar: ao envelhecer tornamo-nos mais subtis.
Aceito e colo-me ao teu peito com muita resolução. Abraço-te mas as mãos estão tímidas e não sabem uma posição onde encaixar, ficam penduradas na sua hesitação de meio século. Conhecemos tão bem a música — These arms of mine/ They are yearning, yearning from wanting you — que parece que nos conhecemos há muito, e poucos minutos são precisos para que nos mintamos jovens outra vez: as cinturas encostadas ondulam, os braços esvoaçam graciosamente conquistando o ar, os pés baloiçam no chão que amolece, somos cisnes. Aos cinco anos o chão é um tapete voador que se forma ao nosso ritmo, e um par de dança é um acessório de alegria. E também tu, agora, te tornas um instrumento: é comigo que danço, feliz no vestígio de corpo volúvel, feliz por ainda saber dançar assim. Danço comigo e com o vinho, não quero saber se és paixão: aos cinquenta e cinco anos já se distingue o objecto do sentimento. Sorrio e ficas orgulhoso disso. Um joelho falha-te e quase cais sobre o meu colo, ris-te. Aos cinquenta e cinco anos volta-se à descontracção dos cinco e facilmente se transforma um embaraço numa risada. Rimos e nesse riso não há idade, volto à sensação de leveza.
Largas-me no fim da canção e os nossos joelhos interrogam-se sobre o que seremos a seguir. Eu pego no meu copo, bebo redondamente, aproximas-te:
- Mais uma?
- Agora não.
- Ora essa, porquê?
- Agora estou na consciência do desajeitados que somos.
Sorrio e tu fazes um ar muito muito sério:
- Bebe mais um pouco.
Rio-me, ris-te, o copo ri-se de nós.
- Não vamos dançar, não, prefiro deixar-nos na dança do subconsciente.
- O riso?
- Sim.
E rimos.
- És tão ridícula.
E rimos.

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