segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Riso de Pan


Do cimo da rocha o flautista encanta joelhos
ela olha o verde liso e lança-se à água gelada
e ao chegar ao fundo encontra inexplicável
o som do teu riso

Sob a força hipnótica da flauta, o negrume da água
— procurando o brilho estelar de quando ris—
crava-lhe os melodiosos dentes na carne
e dos limos surgem cobras
que rodopiam compassadas: allegro maestoso
ela sobe e ascende e não sabe
se é o teu riso ou veneno que a faz flutuar
rodopia rindo como quem foge
uma gargalhada húmida atinge-lhe o desejo
e sem poder desliza para dentro da espiral ofídea

É uma valsa líquida, uma poesia réptil
uma felicidade de olhos cerrados
porque o teu riso é o corpo dela nu
a nadar feérico na fria água
como a música da flauta é encanto que vem
do riso guardado lá dentro

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