Pai
podes morrer plenamente?
mesmo que eu tenta de olhar, de carregar-te
com o tremor da incompreensão nos joelhos
o espaço vazio a crescer-me nas mãos
a dor velha espuma dos dias
mas morre de uma morte toda morte
que devaste o dia com a sua punhada frontal
Papá
quem são estes senhores que discutem o teu funeral?
porque falam em dignidade? Eles vendem promoções
ditam anúncios de jornal, engolem ornamentos
arregaçam as mangas
quem são estas senhoras que choram quando lhes digo
o meu nome?
Pai
eu não sei nada sobre o fim mas quando morreres
morre de uma morte inteira e limpa:
pútrida escura inelutável voraz
que te esgote como fez a vida: em luta por merecer-te
infinitamente
Morte, conserva o Pai
na verticalidade luminosa que tempo algum soube
derrubar-lhe
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