domingo, 18 de novembro de 2012

Último desejo

Pai
podes morrer plenamente?
mesmo que eu tenta de olhar, de carregar-te
com o tremor da incompreensão nos joelhos
o espaço vazio a crescer-me nas mãos
a dor velha espuma dos dias
mas morre de uma morte toda morte 
que devaste o dia com a sua punhada frontal

Papá
quem são estes senhores que discutem o teu funeral?
porque falam em dignidade? Eles vendem promoções
ditam anúncios de jornal, engolem ornamentos
arregaçam as mangas
quem são estas senhoras que choram quando lhes digo 
o meu nome?

Pai
eu não sei nada sobre o fim mas quando morreres 
morre de uma morte inteira e limpa:
pútrida escura inelutável voraz
que te esgote como fez a vida: em luta por merecer-te
infinitamente

Morte, conserva o Pai
na verticalidade luminosa que tempo algum soube
derrubar-lhe

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