A romã esconde-se numa dura camada de incompreensão. Ao primeiro relance, a romã insinua-se, escarlate, maçã de rosto corada. Redonda, fértil, a romã espera o tempo que for preciso, respirando pela coroa do tempo. Mas quando é descoberta, a romã faz explodir o perfume da paixão. A romã come-se com a voracidade da infância.
A romã faz-se difícil ao abrir e lá dentro tem mil pedaços minúsculos, cheios de líquido libidinoso que salta para a pele. A romã apetece tanto porque a romã parece ter sempre romã para dar. Descasca-se com força e revela-se minuciosamente, separando os muros do sumo do corpo do fruto. A romã é um fruto que se multiplica dentro dele próprio: pode comer-se a mesma romã mil vezes e cada vez sabe diferente. Pode comer-se aos gomos, enchendo a boca pela concha da mão, como quem devora um sexo. Mas não se trata de sexo, aqui estamos a falar de romã.
Às vezes a romã é romá e sabe a azedo. Mas isso acontece minusculamente, logo a seguir vem um gosto doce que se desfaz na língua, que se suga e morde e engole.
A romã faz falta quando acaba: procuramos um gomo esquecido nas paredes brancas, já cheias de saudade. Geralmente sobram só os gomos moles, os que estão já a apodrecer ou os que nem chegaram a crescer. Mas num milagre do coração, órgão que resolve anagramas, surge um gomo intacto: a memória. Essa coisa teimosa cor de rosa e açúcar que se prende à parte de dentro do corpo.
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