sábado, 13 de outubro de 2012

Transfiguração


Hoje sou um lugar sossegado. O nevoeiro e a maresia entraram pela casa dentro antes de eu sair, substituindo a minha presença por vapor. Vaporosa, trago silêncio nos ouvidos. Um silêncio portentoso que entra no comboio e abafa os gestos mamíferos dos viajantes. Pela janela vejo o mar avançar a 90km/h em direcção ao rio. Saio do comboio e atravesso a cidade envolta numa nuvem muda, olhando as coisas através dos olhos sonolentos das manhãs frias. Tudo se mexe estranhamente devagar: homens de pele queimada e mãos gastas asfaltam a estrada com a delicadeza das flores; o jardim minúsculo acolhe toda a luz do mundo por entre as folhas verdes e os frutos carnais dos jacarandás; os transportes seguem como barcos em recreio; as ancas de quem passa ondulam como mastros na marina.  Quanto tempo dura o vestígio de um beijo?
Sou uma câmara lenta a atravessar a cidade feroz. O meu sonho não permite à paisagem que me acorde. Sento-me no meu posto de trabalho e o monitor gigante ilumina-me a responsabilidade. Mais um dia sentado. Permaneço ainda no beijo que me deste e me atribuiu a capacidade de levitar sobre o Tejo. 
Quando a noite cair, lenta ainda, saberei pela luz ensonada se o sonho tem sede de memória. Se passará a história. À noite, ao contar-to, dir-me-ás que não foi ficção, foi de novo o misterioso mover da realidade que converte em tempo a limpidez do desejo.

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