O cadeirão de baloiço tornou-se demasiado irresistível. Cidália cedeu ao cansaço e sentou-se nele a pensar. Um sorriso despontava-lhe nos lábios. Ao fim de 17 anos a costurar vestidos de noiva, era ela sua própria cliente. Todas as amarguras e picadas nas mãos compensavam afinal o poder ser agora a costureira do seu próprio vestido de noiva. Gostava de ser rica: poder fazer um vestido de sonho, que combinasse o corte mais arrojado com o tecido mais caro e os detalhes mais elegantes e para finalizar algumas pedras preciosas, como já fizera para as clientes mais caprichosas. Mas como se sabe o mercado dos casamentos está em declínio e uma cave de casa nos subúrbios não é o melhor negócio para competir em tempos de crise. Cidália teria de usar o que houvesse no atelier.
Durante dias revirou as gavetas e as caixas à procura dos melhores ingredientes. Tafetás, rendas bordadas e organzas, plumas e lantejoulas. Imaginara já umas dezenas de feitios, e assim se mantinha entretida e especialmente bem disposta. Mas não chegava a hora em que dispusesse toda a matéria-prima em cima da mesa e começasse a trabalhar. A patroa cansou-se deste estado de graça que diminuía tanto a produtividade e deu a Cidália uma data-limite para ter o vestido pronto. Tinha nove dias. Ao fim desse tempo já não poderia mais usar material do atelier.
Entregue ao projecto mais complexo da sua vida, Cidália teria de ser perfeita. Recolheu todos os tecidos e ornamentos e esboçou uns traços incompreensíveis tal qual designer de moda. Queria um decote largo e simples, com um tule bordado e apontamentos em pedraria a cobrir-lhe o peito-jóia. Descobriu desolada que o atelier não tinha desperdícios suficientes para compor um vestido de cauda. Cidália queria um vestido de cauda, ia casar-se numa igreja imponente e um vestido sem cauda não tem majestade suficiente para iluminar uma igreja. Nesses dias quase não dormiu. Quase não ouvia quem passava. Montou o modelo possível em cima de um dos balcões: com aquele decote, sobrava tecido para um cinto debruado na cintura, mas… a cauda…
Ao fim de cinco dias não havia resultado satisfatório. A patroa encontrava Cidália, de madrugada, de pé em cima de um banco a provar o modelo, picando-se com os alfinetes, suada e vermelha como as maçãs. Deixou de atender os clientes, era modista para si própria a tempo inteiro. E estava infeliz, por não ter pano para o sonho. A patroa percebeu, e teve uma ideia generosa: Cidália podia ficar com o vestido não-reclamado há mais tempo, que era de uma sexagenária que desistira de casar pela quinta vez. Estava no atelier há quase quatro anos, cheirava a naftalina, o tecido já amarelecera um pouco, mas era uma peça pomposa, uma saia comprida de roda larga com aplicações de guipura e bordados em madrepérola. Tinha decote alto, a cruzar o peito em redor do pescoço formando uma pequena gola. Feio. Mas tinha cauda. E tinha um véu enorme, com pequenas peças em madrepérola e em marfim que desenhavam ramos de coral e flores. Mas sobretudo a cauda… Cidádia não hesitou, agradeceu e atirou ao lixo os remendos que nunca iriam dar em vestido. Tinha só que transformar um modelo para uma velha balofa e baixa num modelo para o seu corpo demasiado magro e alto. Inventou um saiote em renda para alongar o comprimento e fez costuras em toda a volta. Mas na cintura não conseguiu acertar com a curva e vestido parecia um tronco de árvore. Branco. Com cauda e véu, que nesses não mexeu. A cauda e o véu vivem por si. São prolongamentos da noiva que não pertencem à noiva, pertencem ao ar e ao chão que a noiva pisa.
O noivo de Cidália estava preocupado com aquela azáfama. Não via a noiva há alguns dias e quando foi visitá-la ao atelier encontrou-a abatida, com olheiras e sem alento. Cidália correu a esconder a sua obra, que ele, segundo a tradição, não poderia ver antes do dia. Ele abraçou-a e disse que não esperava que o vestido fosse capaz de superar em beleza o que os unia, que isso chegaria para uma cerimónia cheia de luz. Ela comoveu-se e foi para casa dormir.
No último dia concedido para o projecto, Cidália estava extremamente animada: só faltava a curva da cintura, tudo havia de se concertar. Mas a baínha estava diminuta e não havia margem para arranjos. No entusiasmo ela acreditou que ficasse bem inserir dois remendos dos lados, em renda parecida com a do decote, que mostrariam um pouco de pele e apimentariam a luz do casamento. Demorou todo o dia a fazer costuras, tal como se faz aos noivados quando a tensão só revela problemas por resolver. Ao fim do dia vestiu-o e desatou a chorar. Parecia que tinha dois sacos frouxos a surgir do tecido nas ancas: modelara para o corpo de sonho e não para o corpo que tinha. Desgostosa, pensou o mesmo do noivo. E do casamento. E quis desistir.
A patroa apareceu nesse momento e viu o vestido já despido banhado em lágrimas, perguntou porque estava naquele estado.
- A única solução agora é vendê-lo, disse. Cidália abraçou-a, era uma excelente ideia. Fizeram um anúncio que espalharam pela vila:
VENDE-SE
VESTIDO DE NOIVA POR ESTREAR
DESIGN SUECO
BOM PREÇO
273 234 878
Esperaram uma semana inteira e só um telefonema: de um travesti que por ser gordo só caberia no vestido antes de ter sido arranjado.
Cidália anoiteceu.
Faltavam seis dias para o casamento e não tinha vestido. O noivo chamou a patroa. Perguntou o que daria para fazer apenas com a cauda e o véu:
- Mas a cauda e o véu são dependentes do corpo do vestido, existem para melhorar o vestido, para o completar, entende?
O noivo voltou a casa triste. Era noite tardia e ao entrar havia panos espalhados por todo o chão da casa. Tropeçou num pijama branco e depois num lençol branco e depois em Cidália toda corada mas vestida de branco. Um vestido simples em algodão já desbotado, com o peito em barco, dava pelo joelho:
- É o único vestido branco que tenho.
- Tem um decote cintilante.
- Gostas?
- Gosto. És tu.
Cidália sorriu. O noivo lembrou-se:
- E a cauda e o véu?
- És tu.
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