sábado, 13 de outubro de 2012
Messalina V
Querida Messalina,
Bem sei que pouco ligará às minhas palavras, mas sinto que lhas devo por intermédio de quem represento. A minha missão obriga-me a apoiá-la depois de tudo o que tem passado, porque todos somos filhos de Deus, por muitos desvios que à Sua vontade se façam.
Messalina, o seu caminho tem sido tão pedregoso. Mas só quem nunca tiver pecado pode condená-la, e até ao último dia tem em suas mãos mudar de vida para o bem.
O que faz aos homens não é justiça, como se diz por aí, é uma fractura na bondade dos dias, Messalina. Anda a brincar com o seu fogo, e o seu fogo queima. Queima o fio frágil do sossego do corpo, que foi gerado para ser amado e não para ser usado. Corpo que deve seguir os desígnios de uma vida dedicada a Deus e ao Outro. Mas dedicação ao Outro não através da luxúria, que traz uma felicidade fácil e pouco duradoura. A luxúria é um pecado mortal, Messalina. O corpo em desassossego serve apenas para atormentar a Alma.
Diz-se que tem uma missão. Que missão é essa, Messalina? Fazer os homens perder a cabeça? Roubar-lhes os mistérios do corpo? Sabe como é belo o mistério? Quem desvenda o mistério de um corpo deve possuí-lo para sempre. Mas Messalina não volta. Um homem de cada vez e uma só vez. Possui e não se deixa possuir: não é justo, Messalina.
Quando penso na sua missão, como lhe chama, penso ainda no mal que há-de já ter feito a esse corpo e ao dos homens com quem tem estado. Quantas doenças já espalhou? Quantas crianças já matou depois de gerar e antes de sequer nascerem, Messalina? Que o seu nome rima com assassina, sabe? Deus escreve direito por rimas tortas.
Diz-se que a sua sina é morrer por amor. E talvez o seu morrer por amor seja morrer na busca, antes do encontro. Pense nisso. Todos podem salvar-se e viver o amor em pleno, até ao dia do Juízo Final. Pense nisso.
(Depois deste aviso Messalina repousa nas linhas do meu caderno até acabar a sua missão. Há-de ser um dia um conto epistolar. Até lá, prefere não se expor.)
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