sábado, 13 de outubro de 2012

Poesia, saudades da prosa *


Diante do verbo criador
O meu desejo estremece, procura a tua carne
E tudo o que alcança é um vocábulo fértil

Cada palavra é a multiplicação generosa das estrelas à medida que as fixo
Eu sussuro-a, grito-a, rio-a e faço-me rio para esse lado do tempo
O teu nome derrete nos dedos da água
Sou uma ilha silenciada nos limites do desejo

Sabes,
Se o querer tivesse céu-da-boca eu saber-te-ia de cor
Um saber quente, a céu aberto
Pronto-a-comer

Invento jogos de palavras que nos entretêm
Biombos gramaticais 
Finjo prosa onde sou presa
Nos nós finos dos teus dedos, no teu pulso-barco
Na forma como agarras com justiça cada coisa
Cada pedaço de corpo?

Tomávamos banhos nus e frios no tanque onde desaguava o poço
Lembras-te?
Éramos cobras que eram cordas e atravessavam o chão de um lado ao outro
Comíamos terra, não fazíamos perguntas

Medo do fundo do poço

O violoncelo de Casals toca tão alto que deixo de pensar
Deixas de ser
E se possuir é perder, então regressas como as memórias de infância
Molhada
E eu fujo com a responsabilidade debaixo do braço adulto
E um sorriso que deita ao soalho fragmentos de vontade

Medo do fundo do verbo que és




* Título demasiado apropriado de Manuel António Pina, que me ensinou que a infância só a temos quando já a perdemos.

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