Nas cidades portuárias a água é uma estrada.
Em Lisboa passam embarcações de todos os tipos e tamanhos, cruzando-se em linhas serenas que ditam a sina dos habitantes. No Tejo todos os dias os barcos chegam e partem cheios de gente e de géneros, cheios de peixe, de automóveis, de petróleo, de turistas.
Os navios de cruzeiros, na sua liberdade e independência, atracam no cais de nariz empinado e das varandas parecem edifícios temporários.
Os cargueiros chegam cheios e partem com uma geometria vazia que inquieta.
A vida das pessoas parece mais líquida.
A caravela desliza lentíssima ensinando a história em réplica de viagem dos incríveis Descobrimentos.
Pesqueiros maiores, menores, ansiosos, trazem para casa o peixe morrendo. E as gaivotas estonteadas dançam com eles uma volúpia necrófaga, perseguem-nos como ímans, desenham uma saia transparente presa à cintura do barco, que assim parece mulher assediada.
O chão é mais frágil que nas outras cidades. Teme-se que a água leve a terra.
Aos Domingos de manhã são tantas as velas minúsculas que povoam que se cria um padrão branco comandado pelo vento. Lanchas cruzam-se ora em exibições de ricos ora em atarefamentos de porto. E os iates multiplicam os espelhos da água nas suas superfícies polidas e pomposas.
O ar parece maior.
Porta-aviões cruzam a água como ameaça de guerra, em imponência cinzenta, ameaçando ser impossível que um aeroporto flutue, provocando a desordem das escalas e dando vontade de ir buscar mais peças e a cola para continuar a montar a maquete.
E até submarinos, aparentemente invisíveis, adensam a paisagem.
Maria viaja com a família num catamarã alugado para festejar o vigésimo aniversário do casamento dos pais. Saíram do porto ainda a água era rio e agora estão em alto mar brindando com champanhe em copos flute de cristal. Os dois irmãos, em tronco nu, inspiram com dedicação o ar salgado. Os pais de olhos fechados recapitulam na memória os sete mil e trezentos dias que passaram juntos casados. Ambos sabem que querem mais, sorriem.
Maria entedia-se com aquilo tudo: é demasiado perfeito, parece um anúncio de televisão, consegue mesmo ouvir a voz off anunciando a roupa perfeita para uma vida perfeita. Com o seu monóculo, atenta na quantidade inacreditável de tipos de embarcação que passam. Pensa como cada um tem a forma do seu uso e molda a vida dos navegadores e da cidade. Pensa como será passar a vida com os pés assentes em água, se será possível ter-se ideias firmes assim, se o pó da terra fará falta. Fixa o olhar num cargueiro multicolor e vazio que passa muito perto em direcção oposta, e sente a inquietação da escotilha descarregada, tão ortogonal a transportar apenas céu. A meio do convés avista um homem formiga, de pé debruçado sobre as grades que o protegem de cair, os cotovelos apoiando o queixo e um olhar indefinível. É um homem encorpado: mesmo àquela distância distinguem-se-lhe os músculos dos braços e do tronco. Um estivador descansando? Pensa como seria a estiva há 50 anos, o cansaço, o desgaste. Mas na sua postura e no seu olhar Maria alcança apenas serenidade: como se aquele marinheiro tivesse o tempo nas mãos. Como se a rota fosse um deslizar mais lento que as horas, líquidas de mar. É um homem inteiro, completo como David, e assim à distância parece um corpo apenas, aguardando emoção que o preencha. Maria sente-se desassossegada, quer chegar-lhe mas vai na direcção oposta. Um navio apita, na estrada marítima fez-se trânsito. O catamarã é minúsculo comparado com o cargueiro, o homem será incapaz de a apreciar a olho nu. Aproximam-se, os barcos dele e dela, e quando se cruzam ela tem a cabeça erguida e o monóculo apontado para ele. Assim é-lhe possível perceber que também ele dá pela sua presença: ela baixíssima erguendo o corpo para ele e ele altíssimo franzindo os olhos na tentativa de a reconhecer, mas atingindo apenas o dourado dos cabelos, a pele escura, a idade curta e os contornos finos. Ela agora a reparar no cabelo escuro e na pele mal bronzeada no peito, no olhar claro, nos lábios grossos.
Dois longos minutos, é o que demora a paixão a surgir. Talvez o amor dos pais tenha contaminado o ar. Mas tudo passa: passam os barcos, passam os braços, e cada um, o marinheiro e Maria, fica como que embriagado, tonto, sem perceber o que aconteceu, arrastando olhar no desaparecimento um do outro.
Surge então o sonho, como onda inesperada, para que a viagem se torne uma estória.
Nas cidades portuárias a emoção é uma passagem.
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