sábado, 14 de janeiro de 2012

Conheci-te numa casa sem mobília


Saio para o fim de tarde e fica frio, o anoitecer esconde a linha do horizonte e sobre o ar cresce o mistério das paixões e das desilusões. Coberto com véu, oculto, este mar lembra-me o que somos.

Conheci-te numa casa sem mobília
Paredes de papel em branco 
Onde te escrevi, me descreveste
Como navios puros e lisos
Mar chão

Mas onde dormir confortável, perguntaste. Comprámos uma cama. Veio com oferta das cabeceiras e vales de desconto para pouparmos no sofá. Aos poucos instalaram-se pela casa os móveis como convidados impertinentes. 

Dantes havia tanta luz
Mar luz

Arrumaste o coração como quem arruma a cozinha: cada um na sua gaveta, as coisas pontiagudas em compartimentos protegidos, o que te alimenta conservado ora no frio ora no vácuo, o chão sempre limpo sem migalhas do passado.
Eu disse que sentia falta de paisagem e tu confundido na metáfora compraste uma cópia do Turner a condizer com a sala. Maré cheia.

Guardei-te durante o sono
Durante a doença da tua ausência
Durante o desespero manso 
Da manhã a nascer
Mar amado

As perguntas que eu fazia ficavam suspensas nos candeeiros, os desabafos estouravam contra os espelhos e voltavam para dentro. A tua corrente deixou de correr e só à noite, no escuro e em sonho, tínhamos o nosso espaço puro. 
Agora o meu vestido é um retalho sobre a colcha. A minha pele é um pormenor sobre a decoração das paredes. E o mar tornou-se apenas vista da sala.
Neste azul de cair o dia sinto a falta da luz. Porque quando a mobília dos dias tomou conta de ti encobriste, e eu encolhi.

Guardo-te no sono e na doença da tua ausência
A tua pureza colhe-se em mim
Mar velado

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