terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Messalina II

Messalina,
Quero agradecer-te a noite que me deste e tem de ser por escrito, para que ao menos as palavras se fixem. 
Bem sei que foi há meses, mas a cada dia se torna mais urgente.
Messalina, não havia poesia no meu corpo, só veias. E tu trouxeste-me o pulsar quente, luxuriante, do corpo: do corpo que se move noutro até encaixar, do corpo que saliva e escorre até colar, do corpo que rasga gritos da origem do mundo até ao fim das forças.
Obrigado, Messalina, pela devassidão.
Mas agora esconde-te, Messalina, não me deixes encontrar-te por aí. Porque se te encontro de novo por acaso, o pescoço de diva erguido, o corpo tapete vermelho, surgida não sei de onde, se te reencontro mato-te. Porque não se tira assim a virgindade a um homem, trocando-a por poesia, explicando o que é justiça e saindo ainda a meio da noite sem palavra, se te reencontro mato-te. Deixaste o meu corpo desfeito de promessa, será para sempre expectativa, este corpo: exigência insaciável, desesperança. A não ser que voltes. Mas tu nunca voltas, pois não Messalina? Sinto-me um primeiro verso de poema incapaz. Compreendes?
Obrigado e foge.

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