Joaquim pára debaixo da copa. Vinha de carro em passeio domingueiro pelo Alentejo com a mulher e interromperam ali a viagem porque lhes chamou a atenção a enormíssima envergadura da árvore. Maria deixou-se ficar para trás, o marido avançou lentamente, seis passos e ainda não tinha alcançado o tronco. Não tem coragem de lhe tocar, nem quer sair dali. Para isso ficou Maria para trás, puxá-lo-á pelo braço quando for hora de ir embora. Sempre foi esse o seu papel: âncora. De resto ela sabe perfeitamente que ele quer avançar sozinho.
É uma oliveira milenar. Tem mais de dez metros de perímetro, a altura chega aos quarto metros e quarenta centímetros e o diâmetro de copa tem sete por oito metros e meio. Perfeita, frondosa, os ramos crescidos em direcções imprevistas, o tronco retorcido e bifurcado, uma textura agreste e seca, — "quantos metros terão estas raízes escavado na terra?", pensa Joaquim — tudo brotando da terra numa massa rude, brava. Joaquim é um homem simples, um metro e oitenta, a barriga a denunciar o fim da meia idade, camisa aos quadrados azuis e verdes por dentro das calças vincadas e cinzentas, calvo mas ainda rijo, com um andar determinado e sempre atento e uma presença espessa. Lê a placa que legenda a árvore: A árvore mais velha de Portugal, com dois mil oitocentos e cinquenta anos, idade certificada por métodos inovadores.
Dois mil oitocentos e cinquenta anos de seiva, de fotossíntese, de unguento e de alimento, de combustível e de imobilidade, de silêncio. E mesmo assim viva, cheia de esplendor e força. Impondo-se, frondosa, a Joaquim. Como é que se sente um homem de sessenta e dois anos perante uma oliveira de dois mil oitocentos e cinquenta anos? De pescoço erguido e mãos nos bolsos das calças, comove-se. Maria contempla-o: como parece minúsculo debaixo daquela copa! Como parece inocente! E ali debaixo, repara, como parece afinal mais velho, como se das folhas caisse um pó de sabedoria ancestral.
Com dois mil oitocentos e cinquenta anos, a oliveira viveu muito antes de nascer Portugal. E já antes disso conheceu romanos, germânicos, visigodos, suevos e árabes. Viu as fronteiras serem definidas e redefinidas, as guerras em nome da terra e em nome dos deuses. Testemunhou a brisa que Jesus Cristo deixou no céu, ouviu falar dos milagres, da ressurreição. Das reconquistas cristãs, da exploração marítima, do império colonial. De um dia ser árvore do maior império mundial, quando cheirava a canela e açúcar por todo o lado. Ouviu falar da queda da Monarquia, da República, do Estado Novo, do êxito do 25 de Abril, da adesão à União Europeia.
Mas esta oliveira assistiu também à regeneração sucessiva de muitas famílias, que na sua vida privada vêm fazendo outra História: como o homem começou a duvidar de Deus, como o amor se tornou livre, como a liberdade se tornou um valor supremo, como os tabus caíram triunfalmente. Como o dinheiro comprou quase tudo, como as terras se saturaram, as espécies se extinguiram e os aviões despontaram. Como os homens perderam força e as mulheres a inocência. Como o homem ficou descrente e a mulher se adorou no cúmulo da vaidade: como o pedestal de Maria deixou de ser santo.
Maria, em sessenta e um anos, nunca vira homem tão fragilizado. Joaquim é um muro firme, construiu-se com minúcia, pedra por pedra, abala-se com muito poucas coisas. Mas ali parece apenas uma criança. Uma criança cheia de experiência e de antiguidade: uma infinita criança.
Em dois mil oitocentos e cinquenta anos, o homem inventou a ciência, a indústria, a imprensa, a estética e a adolescência. Descobriu a electricidade, o petróleo, o Raio-X e a cura para quase todas as doenças. Inventou o telefone, a câmara fotográfica, os jeans e o plástico. Reinventou-se. Em dois mil oitocentos e cinquenta anos, o homem quis ser deus, depois apenas sábio, e depois apenas jovem.
Desta árvore não se pode dizer que não acreditaria se visse. Ela viu tudo, assistiu à evolução do homem na sua fase mais crítica, acelerada, avançada. Acredita em tudo, sabe exactamente que é o bem e o mal. É uma epopeia de madeira, sabedoria verde. E tudo em silencio sepulcral, em imobilidade serena, em folhas simples.
Joaquim, com sessenta e dois anos, é ainda tão novo. E nunca pareceu tão antigo aos olhos de Maria. E tão pequeno, na sua verticalidade curta, olhos postos no céu feito de folhas, a boca aberta de espanto. Não há outra forma de reagir a esta oliveira que não seja o espanto, o deslumbramento, a fraqueza dos joelhos. De que serve a mais preciosa palavra que saia da boca de um homem diante desta planta monumental?
Maria comove-se. Que imagem. O homem que lhe deu tudo, que tão bem conhece, com quem teve três filhos, três doenças graves, milhares de discussões escusadas, duas casas, tantos animais, tantos jardins, hortas e pomares plantados e deitados a baixo para plantar de novo, tantos beijos, tantas noites boas e outros tantos pesadelos, tanta descoberta e tanta luta. E agora uma simples árvore faz tudo parecer irrisório: um homem minúsculo debaixo de uma árvore grandiosa. E todo o império sangrento criado pelos homens escorrendo do verde das folhas para a boca espantada de Joaquim. Num silêncio que nem o poema poderia compreender.
Maria chega-se a ele e puxa-lhe o braço. Beija-o e voltam calados para o carro. Depois de testemunhar tudo, nada é preciso pronunciar.
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