quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Isto não é teatro.


Cospe essa palavra. Cospe! Não mereces essa palavra dentro da tua boca.

Dá cá, dá cá, eu pego-lhe ao colo ou ainda morre de frio. Porque enches assim a boca de palavras se não tens paladar? Não as saboreias, não as sentes, não as recheias de verdade alguma. COSPE! Deita-a aqui na minha mão que cuido dela, escuto-a, embalo-a se for preciso… deixo-a entranhar, se ela quiser. Fugir, se quiser. Mas não a engulas, não mereces. Dá cá, oh, não trates as palavras assim! Vazias, viradas do avesso, pálidas. Não percebes que definham? Não sabes que se perdem se não forem justas? Pensas que as conheces? Que as dominas? Que injustiça, usá-las para mentir! Tudo o que sabes é teoria, por muito que saibas a ciência toda. Inchas o peito e falas. Se fosses honesto com elas… se soubesses ser honesto… C-O-S-P-E! 

Não devem servir as palavras para desvendar a verdade por trás das coisas? Se não sabes do que cantas, porque cantas assim? Porque usas a retórica, porque argumentas, porque vendes, roubas, porque mentes, com essas palavras?
Sai, volta com a palavra atrás, retira o que disseste, pede desculpa. Pede-lhe desculpa! Eu se me engano nas palavras é porque antes me engano a mim. Mas tu enganas com elas. Devias engasgar-te com elas! Para quê tanta eloquência? Cala-te! CALA-TE! Cospe, cospe e pára de me olhar com esse desprezo, quase com pena, páras?

Cospes.
Deixas-me no chão triste, agarrando o que cospes como quem olha para os cacos da boneca preferida. 


Olha o que fizeste.

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