Assim pousada em cima da mesa, redonda, fresca e cheirosa, pede mesmo que a agarre. Deito-lhe as mãos, ávidas de Outono. A primeira clementina do ano, ainda com manchas de verdura na casca mas já pronta para ser despida. Meto-
-lhe os dedos por baixo da pele, explode a acidez pelo ar à minha volta. Puxo a casca com um sorriso de novidade, de quem acaba de chegar a casa após muitos meses e redescobre o aroma do jardim.
-lhe os dedos por baixo da pele, explode a acidez pelo ar à minha volta. Puxo a casca com um sorriso de novidade, de quem acaba de chegar a casa após muitos meses e redescobre o aroma do jardim.
Comer uma tangerina após o Verão é a melhor hipótese de ter o novo de novo. Com os dedos molhados vou descascando, o cheiro entranha-me, fecho os olhos. É aqui que o ano se renova, e nem ponho a hipótese de festejar a passagem de Dezembro para Janeiro com a delícia com que me lanço ao primeiro gomo. Sabe à acidez das coisas difíceis de conquistar, engelha-me as bochechas e no fim rende-se com uma doçura que compensa na língua. Ao segundo gomo já sabe apenas a açúcar, líquido e frio. Ao quinto gomo, nalguma mossa da viagem, sabe à amargura de coisa dorida, deixada a apodrecer sem a entrega merecida, ou amachucada na infância. Penso sorrindo como são assim os meus dias, gomos-horas que passam pela tristeza e pela felicidade vezes sem conta. O sétimo gomo, o da sorte, abro-o com cuidado, rasgo-lhe a pele fina e transparente, desdobra-se em dezenas de minúsculos gomos sumarentos. Se eu abrir esses minúsculos gomos há ainda minusculíssimos gomos? Não, sobra apenas o sumo dos dias, a última camada do tempo, a imaginação. Tudo líquido cor de tangerina, clementina desfazendo-se na minha boca quente… terá ainda cor quando me chegar ao sangue?
Apetece-me voltar ao início. Pego noutra citrina, sinto a primeira cair-me no estômago vazio, rosam-me as bochechas por causa da acidez. Sorriso. Empenho-me, um fruto assim tem de ser desfeito com minúcia, não se pode voltar a fechar, não há retorno, é a virgindade.
É pelo sabor que saúdo o ano novo, nas tangerinas e na sua irresistível ambiguidade agridoce. Abro a casca dos dias jovens e sorvo até à imaginação.
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