Deolinda, mulher subtil e farta de ser calada pela presunção da espécie masculina, levantou-se do banco comprido para ler a primeira escritura. Os seus joelhos grossos e secos entreviam-se no púlpito marmoreado, da cor da saia larga e velha. Joelhos, mármore e saia, tudo rosa. O livro dourado já estava aberto, olhou em frente e inspirou profundamente. Timóteo, versículo 2 capítulo 11. Leu a primeira frase, hesitou. Voltou a olhar em frente, semi-cerrando os olhos. Inspirou de novo e disse:
- O homem foi feito para construir, assim disse Deus. Fez-se homem erguendo coisas: primeiro ajudou a erguer o tronco do qual construiu a roda, depois ergueu o mastro do qual construiu o navio e mais tarde o arranha-céus do qual fez chão. O homem faz o mundo à sua imagem, como faz um filho: erguendo.
Na igreja ressoou a típica tosse contagiante dos locais distintos. Deolinda de joelhos trementes mas de voz imperturbável:
- Deus não está no céu, para onde convergem os narizes dos homens. Deus está nas profundezas da terra e por isso nunca foi encontrado pelo homem. A mulher, por sua vez, fez-se desde o princípio cova: aprendendo a profundeza das coisas. A mulher sabe que a verdade é para dentro. Deus escolheu o homem e a mulher submissa ficou em silêncio a contemplar. É por isso, meus irmãos, que deveis honrar a mulher. Não deveis aprender mais sobre o Espaço do que souberdes sobre a Terra, e é ela, a mulher, que vo-lo pode ensinar. Sêde submissos como ela foi. Erguei-vos dentro da mulher, não para fornicar mas para aprender. É este o ensinamento do Tempo que Deus entregou ao Homem, e não se torna assim o próprio ensinamento divino?
Por todo o lado se erguiam pessoas que apenas não se insurgiam pelo respeito ao sagrado do sítio. O padre levantou-se lento como era e fincou as unhas no cotovelo de Deolinda. Ela olhou-o, apenas, e atingiu-o muito fundo. Depois ainda gritou:
- A mulher construiu-se escavando o chão daquilo que é o homem! Deus está no chão!
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