Dois corpos masculinos rodando suspensos sem gravidade sobre o eixo do acaso. Cabisbaixos, cabisbaixos. Como se apenas a sua presença, despegada de qualquer força ou vontade. Uma luz difusa envolvendo-os.
O primeiro, rodando lentamente, um homem com os seus quarenta anos, dorido da vida. A mulher dele havia morrido por nada quando saía de uma consulta do hospital, caíra ao chão e nunca mais fora vertical. Passaram três anos, vive com o filho, tudo lhe lembra a mulher. Diz que quando o filho casar emigra: refere-se a morrer. Escorre-lhe do corpo nu um pó escuro, matéria da angústia. À medida que roda desenha-se no chão um círculo negro e irregular.
O segundo, lentamente rodando, um homem na casa dos quarenta anos, demasiado ligado à vida. Família canónica, filhos nascendo, uma carreira asfixiada pelo perfeccionismo, demasiado pensar. O projecto em que investiu todas as forças falhou. Tem pouco êxito nas relações, deixa escapar as paixões por entre os dedos como areia e fala cinismo onde quer beijar. A idade deixou-o cinzento, quase inerte. As desilusões escavaram-lhe o frágil corpo por dentro, como se faz às beringelas antes de rechear. Está vazio, incapaz de chorar, mas com a terrível vontade de chegar a algum lado, de saber onde. À medida que roda absorve o pó negro do círculo irregular como se fosse uma esponja. Ainda tem sede.
O primeiro homem desta espécie de carrossel deixa a dor escorrer, como o sangue dos animais em matança. "Podia ter sido de outra maneira, mas a vida quis assim."
O segundo homem, girando devagar, vai sentindo dor à medida que absorve. Sorri largamente. A dor passa-lhe depressa, porque não tem onde guardar seja o que for. O pó desfaz-se dentro do corpo e o homem fica mais cinzento.
O círculo mantém-se, assim, estável. Um homem sente demais e nada pensa, outro nada é capaz de sentir, só pensar. E o círculo mantém-se assim estável.
Uma criança pelos 6 anos sendo empurrada para a frente ao mesmo tempo que o seu rasto é puxado para trás. Está sentada numa cadeira e sente mais o rasto que o corpo. Sente-se a flamejar na direcção contrária à da marcha, como se estivesse a ser puxada da sua origem. Constrói na sua cabeça imatura a imagem de uma viagem de comboio rumo ao longe, o vestígio que fica do movimento, vaporoso e inverso aos braços de sua mãe, o seu lastro. É isto crescer, pensa — e é a primeira coisa que verdadeiramente pensa — ser empurrado ao contrário.
Dois corpos, um masculino um feminino, provando-se. Enrolam-se e apertam-se para que o mundo fique melhor. Mais equilibrado entre o bem e o mal. Esforçam-se, voluptuosos, enquanto a pele liberta amor contra a maldade que rodeia as casas da cidade. O corpo dele liberta suor, quente e brilhante, e o corpo dela liberta a sensualidade primitiva da mulher. O vapor sai pela janela, cheirando a lascívia, e junta-se ao fumo das armas e ao pó do chão pelejado. Quando as partículas se encontram formam bolhas brancas opacas que explodem em minúsculas estrelas. Nulo. Os dois corpos beijam-se, lambem-se, molham-se, trincam-se, batem-se. Mais, é preciso mais, diz o homem. Sim, diz a mulher, como desde sempre disse. Eles escalam-se como montanhas, o estrondo dos disparos é igual de ambos os lados da guerra, onde as montanhas não recebem amor. E o chão descompõe-se, libertando terra para cegar os homens. Mas a história ensinou-lhes mais sobre o mal do que sobre o bem. E nesta estória há apenas um homem a lutar pelo bem. E há apenas uma mulher, que com todos os abraços que tem no corpo chega para compensar a guerra. As estrelas sobem e deitam-se numa morte luminosa. Os amantes dormem, os combatentes vigilam. É o que distingue a coragem do medo.
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