O seu ponto fraco é o rabo, onde os deleites da boca acumulam desesperos do espírito. Quando anda, move o mundo da esquerda para a direita e da direita para a esquerda: o rabo bamboleante, não pelo peso mas pela atracção, parece alterar o ponto de equilíbrio da terra. Altera, pelo menos, o do desejo dos homens, que não sabem que milénios de história os impedem de gostar de corpos magros.
Por causa das malogradas dietas, o colo de Madalena impregnou-se de estrias. A época diria descalabro, mas assemelham-se na verdade a leitos de rio, escavados minuciosamente como se a pele quisesse construir caminhos.
Nunca lhe ocorreu frequentar o ginásio, embora o marido seja viciado naquilo. Abomina qualquer tipo de dor no corpo do mesmo modo que outros abominam as dores da alma, diz que quer resultados sem sofrimento.
João é um homem de forte estatura. Os músculos definidíssimos, a altura quase exagerada e o ar firme fazem-no parecer uma espécie de âncora do mundo: parece capaz de o segurar quando o ponto de equilíbrio colapsar. Faz exercício duas horas por dia todos os dias menos ao fim-de-semana. Quando passa muito tempo sem os pesos diz-se a esvaziar, como os balões quando ficam murchos. Por causa desses períodos cresceram-lhe estrias na pele por cima dos tríceps, o início do braço por trás do ombro. Usa o creme adelgaçante da mulher para se tratar e volta ao ginásio como um alívio.
Aquela rotina endureceu-lhe o corpo e o resto, e talvez por isso não veja a poesia dos rios da bacia de Madalena. Talvez por isso não saiba que quando se deitam na cama e a enchem de desejo, quando se enrola no ventre da mulher e lhe aperta o rabo com os braços, aí as estrias unem-se, alto contra baixo, rio contra leito, dentro contra fora e fora contra dentro como o amor que fazem. E nem Madalena nem João sabem que é isso que os une.
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