terça-feira, 13 de abril de 2010

Sinestesia

Pousando os pés ora na areia molhada, ora no alcance das ondas de espuma, estanquei os passos e respirei de nariz erguido muito profundamente, como fazem os cães. Era o cheiro a lenha queimada de uma fogueira já extinta que jazia em cima da areia.
Fiz o ar entrar-me nos pulmões insistentemente, aumentava o sorriso a cada inspiração. Fazia-me lembrar as horas infinitas que passava a ver as queimadas do meu avô arderem no quintal, depois da poda ou das colheitas. Analisava os sons da madeira a arder minuciosamente, o ruído agudíssimo dos ramos verdes no fogo, o estalar dos bichos que eram apanhados nas labaredas, o murmúrio grosso das chamas a engolirem tudo, e no final uns estalidos muito suaves das cinzas a afogarem o laranja-vivo em monocromia de preto, de morte, de fim.

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