domingo, 18 de abril de 2010

Shh

Eunice sentou-se com a avó no banco do jardim da casa, à sombra, em frente à mesa de granito e por baixo da amendoeira em flor. Estavam ali a celebrar a Primavera, o ar estava cheio de pólenes, pequenas pétalas de flores e insectos exuberantes. Estava finalmente quente, depois de uma interminável época de chuvas. Era fácil adivinhar que eram avó e neta pela forma como pousavam as mãos no colo: iguais. Eunice com as suas mãos tenras em concha, uma acolhendo a outra. A avó com as suas mãos espessas em concha, uma escondendo a outra.
Eunice pediu à avó que lhe contasse uma história e fechou os olhos. De olhos fechados seria mais fácil ouvi-la, e o ar entraria mais intensamente pelo seu corpo, inaugurando-o de Primavera. A avó aceitou o desafio, sabia muito bem contar histórias, mas impôs uma condição: enquanto ela falasse, Eunice tinha de cantar. Eunice aceitou a proposta, se havia coisa que sabia fazer era cantar, mas numa condição: a avó inventaria a sua história a partir dos sons que ela lhe desse, como se a neta fosse a maestrina do enredo. A avó aceitou a condição, numa outra condição: fechariam as duas os olhos, a Primavera dar-lhes-ia a afinação, a primeira nota, Eunice traduzi-la-ia em música e a avó transformaria cada nota numa personagem, e cada melodia numa peripécia.
Era um desafio complicado, mas o tempo estava preguiçoso do sol, a tarde ia demorar-se, começaram ambas o jogo.

[Pardais chilreando canções luminosas.]
[Um assobio agudo e ritmado nos lábios rosados de Eunice.]
- Era uma vez um menino chamado André Pássaro. Tinha sete anos e nesse dia saltitava por entre as oliveiras do seu pomar enquanto o pai lhes batia nos ramos para as obrigar a dar-lhe as azeitonas. O pai estava concentrado na sua tarefa e nem dava pela agitação do filho. As azeitonas iam caindo como chuva nas suas cabeças e depois no chão. André corria para cima e para baixo, moendo a erva onde os pés pisavam e fazendo buracos com a forma das suas botas na terra. O cão perseguia-o, com a língua de fora e o pêlo baloiçando no movimento o dorso.
A avó pára o seu conto e Eunice pára o seu canto.

[Cheiro intenso e quente a excremento de animais: cavalos e ovelhas.]
[Som monocórdico e grave entoado em Eunice.]
- Do outro lado da rua está o vizinho da frente. O André Pássaro teme-o muito, não por respeito mas por receio. Chamam-lhe Xico Facas, é um velho que não corta o cabelo nem a barba há longas décadas, cheira mal e azeda qualquer conversa com o seu cinzentismo. Diz-se que colecciona gatos dentro de jarras de vidro e lhes chama gatinhos bonsai.
Eunice cala-se, ri-se, faz uma expressão muito séria e continua a sua banda sonora.
- O vizinho aproxima-se da casa do André, que tem portões baixos, e por isso ele pode vê-lo a chegar. Chama pelo pai e entra ainda antes de ter licença. O André continua a brincar com o cão mas enche-se de medo, fica cheio de pequenos vazos sanguíneos vermelhos dilatados no pescoço e nos olhos. O cão então sente-lhe o cheiro a medo, e confunde a brincadeira com uma batalha, morde-o no braço, mas o André não solta um grito estridente, trinca os lábios e fita o vizinho.
A avó cala-se, Eunice também, e fica silêncio.
Mantêm-se ali as duas de olhos fechados, no escuro impossível daquele dia ofuscante, as pálpebras de Eunice e da avó fechadas abrindo janelas aos outros sentidos. Sentadas, de mãos no colo e cabeças muito direitas, parecem duas estatuetas de jardim feitas de gesso e pintadas à mão, para adornar a entrada da casa.

[Pequenas partículas das árvores, provavelmente pétalas da amendoeira, chocando levemente com a pele das bochechas redondas de Eunice, depois continuando o seu voo sereno.]
[Sussuro de uma melodia simples e muito harmoniosa, muito doce.]
- A mãe do André Pássaro é uma mulher contagiante. Sempre muito bem disposta, supera tudo com o riso, diz que o riso é o ponto mais elevado da purificação do mundo, para o bem e para o mal, e que quando nos rimos é como se estivéssemos a lançar aquilo de que nos rimos para a evaporação do ar, a entrega-lo à Natureza para ela o reciclar.
Esta teoria sobre a terapia do riso faz Eunice sorrir, mas o sorriso não se ouve e não se cheira e não se sente e pode fazer-se enquanto se canta e por isso a avó continua a sua história.
- O André pensou logo na mãe, pela primeira vez acreditou na teoria — acreditamos sempre nas teorias quando precisamos delas para nos salvarem — e tentou rir-se em vez de fazer uma inconsolável expressão de dor. O cão percebeu o que tinha feito, os cães são como os homens: sabem muito mais sobre o mal do que sobre o bem, e então desatou a lamber a cara do André.
Eunice calou-se:
- Ó Avó, explica lá isso do bem e do mal.
- Oh, Eunice, são coisas da minha cabeça, complicadas para ti. De qualquer forma tu hás-de sempre saber mais sobre o bem, e nem vais precisar de pensar muito nisso.
Permanecem de olhos fechados.
- Vá, falta-te só um dos sentidos, diz a avó. Procura lá um sabor!
Eunice abre a boca, passam-se três minutos de canções de pássaros, cheiro a estrebaria, pólenes bamboleantes. Eunice ainda de boca aberta suspira. A avó pergunta-lhe se quer desistir mas ela nega, diz que mais cedo ou mais tarde há-de atingi-la uma pétala ou um bicho. Passam-se mais cinco minutos e as duas ali estão, no banco do jardim, cegas e mudas, Eunice de boca bem aberta. Levanta-se de repente, sem abrir os olhos, procura com as suas mãos brandas as mãos gastas da avó, procura-lhe a cara, dá-lhe um beijo na boca.
- Pronto, já está, diz. Sabor a avó!
A avó abre os olhos, diz:
- Shh, agora não cantes.




Nyaititi

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