segunda-feira, 22 de março de 2010

Ginástico #7 - Mito

Gonçalo é um miúdo de 12 anos e andar desengonçado. Não tem pai e vive com a mãe dias pacatos numa vivenda pequena e recatada. O que os une é muito forte, passam o tempo juntos, são cúmplices de todos os movimentos que as vidas de um e outro desenham e têm olhos iguais, iguais.
Para comunicar dispensam palavras, e quando estão com outras pessoas criam uma espécie de redoma de ar em volta deles: irrespirável, condensado.
Gonçalo gosta sobretudo de adivinhas, de quebra-cabeças e até trava-línguas. Enche o caminho de casa para a escola destes jogos mentais, enquanto a mãe conduz o carro muito devagar. Sonha que salva toda a cidade com esta sua habilidade. É admirado pelos colegas por ser tão bom a resolver enigmas. Abrem-se por vezes clareiras nas multidões do recreio para que exiba os seus dotes em desafios improvisados.
Mas é também, noutras vezes, repudiado. Por uma culpa que nunca lhe desvendaram: correm rumores por baixo das secretárias e voam intrigas em pequenos papéis por cima das mesas, nas aulas. É o único enigma que não sabe desvendar. Suspeita que terá que ver com a morte do pai, ou com a proximidade da mãe, mas nem ela lhe fala sobre isso, Gonçalo nada sabe sobre o que lhe mancha a glória e vive assim na escola, entre a admiração e a renúncia dos colegas. Acaba as tardes pensativo e cabisbaixo, sentado no muro da entrada e de mãos presas nas cicatrizes dos calcanhares. Teima que aquelas marcas têm algo a dizer sobre a culpa e quer muitas vezes fazê-las falar. Mas as cicatrizes são mesmo isso: bocas fechadas, seladas. E Gonçalo terá no seu corpo um silêncio, para sempre.


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