Os objectos estão todos em cima de uma colcha branca, milimetricamente dispostos. Duas moedas antigas, sete botões, uma chave, um mapa de Reikyavik e uma haste de óculos dormem um sono ortogonal e antigo. Cheiram a pó e estão obscurecidos pelo tempo. São destroços de uma vida que Ana atinge apenas em memórias. Uma vez por mês revisita-os como fazemos com as famílias que temos longe. A carta que o avô lhe escreveu antes de partir acompanha-a sempre na carteira, como as fotografias de filhos. A única fotografia que tem dele, porém, está presa numa gaveta como fazemos às lembranças boas. Traz-lhe a imagem do avô no seu uniforme esvaído na palidez das cores gastas.
A herança simples que coube a Ana foi-se tornando com as décadas num precioso tesouro, ainda mais sendo ela tão apegada aos objectos e o avô tão marcante na sua infância.
Duas moedas escuríssimas, sete botões de osso erodidos e castanhos, uma chave dourada e esquecida, um mapa obsoleto cheio de saudade, uma haste de óculos pretos e entristecidos. Memórias dormindo perpétuas sobre uma cama.
Ainda o avô.
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