Por vezes o sono, antes de despertar, solta inesperadas e instantâneas revelações: hoje trouxe-me a imagem absurdamente nítida da tua cara. Sabes como é difícil ver alguém que não está presente, redesenhar-lhe o rosto distinto da poeira que é o pensamento, fazer a memória visual emergir implacável. É tão difícil! Quantas pessoas já perdi assim: no fim de tudo, gostava de poder ao menos ter uma imagem, uma fotografia imortal de um corpo na minha lembrança.
Hoje de manhã o sono estendeu-me as suas mãos de orvalho e ofereceu-me o teu rosto fino, traçado com minúcia, a testa larga onde cai assertivo o cabelo escuro e os olhos escuríssimos e o nariz longo, os lábios sulcados no rubor do sorriso e o olhar entrando por mim adentro tão meigo e a pele, a pele branca tão branca que quer-se tocar para ver se é verdade, o teu rosto todo com uma verdade que a escrita nunca poderá descrever, porque ela estilhaça as coisas com os seus retalhos de palavras, porque ela abre espaços em branco no teu rosto que o sono me deu. Perfeito.
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