Aprenderam numa tarde inocente uma forma de enganar o espaço e o tempo ao mesmo tempo.
Primeiro.
O elevador do prédio onde eram vizinhos era sumptuoso: espelhos nas quatro paredes, tecto dourado e chão alcatifado a vermelho, portas de madeira e uma atmosfera artificialmente perfumada por flores.
Segundo.
Mal entraram, sozinhos, o impulso ascendente até à ponta das línguas. Olharam-se cada um a atravessar todo o outro. Fixaram-se depois nos lábios: viram o vermelho do chão alastrar lentamente, transbordando cada vez mais denso e invadindo todo o chão e todo o ar.
Terceiro.
O chão e o ar tombaram sobre os corpos.
Quarto.
Sobravam quatro inflamados andares para se conhecerem.
Quinto.
Era vocação anciã o que os envolvia. Sabedoria descomedida, um rumor antigo.
Sexto.
Quando a carne dele atingiu a dela jorrou deles a humidade guardada no fundo da Terra.
Sétimo.
Ele mergulhou os dedos na temperatura dela. Ela afundou os dentes na textura dele.
Oitavo.
Voltaram a premir Rés-do-chão, querendo muito que ninguém mais entrasse.
Sétimo.
Ele prendeu-a contra o espelho da parede, cheirou-a debaixo do pescoço e dentro do decote; ao subir a língua molhou a pele arrepiada dela até ser travada pelo cabelo da nuca. Mãos enroscadas. Pupilas escuras comendo o ar.
Sexto.
Ele trincou-lhe o cabelo grisalho, puxou-o.
Quinto.
Ela riu-se, para não gemer. Tomou-lhe as mãos ao pescoço e apertou-o.
Quarto.
Ele disse Gosto. Tanto um como outro eram casados há longos anos. Ela subia para provar o jantar do marido-escritor e Ele subia para buscar a mulher-enfermeira para um passeio à beira do rio.
Terceiro.
A pulsão não se casa. Ri-se das assinaturas nas escrituras e boceja nos copos-de-água.
Os lábios dele aqueceram o rosto dela, aqueceram-lhe o peito macio e aqueceram-lhe o ventre e ela aqueceu-lhe o tronco magro e a saliva. O corpo completando-se.
Segundo.
Líquido, líquido.
Primeiro.
Quando é assim o corpo assume o papel de deus: rebenta santíssimo e omnipotente.
Rés-do-chão.
No rés-do-chão, o elevador chegou a abrir, eles recompuseram-se, os vizinhos entreviram o cenário, ninguém quis entrar.
Primeiro.
Viam-se de todos os ângulos.
Segundo.
Ele trincou os lábios, ela abriu-os. Línguas como dedos em teclas de piano. Molhadas. E o nariz grande dele galgando o rubor dela. Os abraços muito apertados não um contra o outro mas um no outro. As pernas de um no outro, o colo.
Terceiro.
Apertaram-se de vontade e tocaram-se de mudez e despiram-se de tudo e
Quarto.
bateram contra as paredes e tombaram de umas para as outras e quase caíram ao chão excitado. Depois caíram ao chão excitados e iam chorando ao respirar.
Quinto.
Sexto.
Sétimo. Oitavo.
A partir desse dia, declaram o elevador como uma zona neutra: nada do que ali fizessem poderia ser punido. Não haveria espaço nem tempo nem lei naquele cubículo. Mal saem do elevador, o mundo retorna: são honestos e distantes. Mas lá dentro subindo e descendo tudo é permitido: um mundo perpendicular.
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