quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Novembro II

A terra que germina as sementes é a mesma que decompõe os mortos.

Moisés levanta-se do sono com a inquietude deste pensamento e sai para o seu pequeno pomar luminoso num Dia de Todos os Santos.
O nevoeiro cerra todos os sons e um fino raio de sol furando as nuvens anuncia finalmente a preguiça do céu em chover. Permanece há dias o cheiro da terra molhada e cansada, empastada de folhas outonais apodrecidas e fartura de água. Todo o solo emana um vapor pálido miúdo e lento, como prenúncio de uma ressurreição.
Moisés pensa no ciclo perfeito que se desenha desde a morte à sua renovação, e no jeito assertivo com que a terra comanda o tempo e a evolução da vida.
Para ele o pomar é um verbo, ditado pelo fogo interior da terra. Cuida-o com a mesma entrega que outros agora velam os defuntos no cemitério, ressuscita-o num novo ciclo de plantação.
Passa a manhã em volta do castanheiro e da oliveira, os únicos que transbordam fertilidade: pica-se nos ouriços e vai comendo castanhas enquanto vareja os troncos que deixam cair as azeitonas num velho panal.
Passa toda a tarde a lavrar e talhar o chão, a fertiliza-la com os excrementos dos animais, a abrir regos para acamar as plantas e a podar as árvores desfolhadas. É um ritual de renovação: o pomar rejuvenescendo ameno e airoso; o homem purgando-se a cada sulco de enxada.
Ao fim do dia Moisés anoitece sobre as mãos gretadas e a terra tentado entrar-lhe no corpo por debaixo das unhas. Exausto, dorme.

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Este texto está editado no separador de Novembro na agenda 2010 da Companhia do Eu.

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