quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ninhos

Todos os dias te reaconchego em mim. Procuro um canto para te deixar, revolvo-me em mil posições para te deitar num abrigo adequado. Todos os dias te mudo de sítio, te embalo num esconderijo diferente do meu corpo. Antes de me deitar, penso em ti e abandono-te num novo território. De manhã espreguiço os sentidos e movo-te novo. Às vezes, como os animais, dou várias voltas sobre mim em busca de ser um repouso melhor, mas acabo na primeira posição, resignada ao espaço que tenho para ti e me parece sempre deficiente.
Quero muitas vezes expulsar-te, mas sei que nunca hei-de tirar-te daqui, por mais que te encolha para me caberes nas pontas dos dedos ou por mais que te amaldiçoe quando não sei mesmo qual é o teu lugar.
Nos melhores dias deixo-te preso ao peito como um pendente, ou um gato com mimo, mas do lado de dentro. Quando deixas de ser calor, reservo-te um lugar mínimo nas palmas dos pés ou um vão entre as costelas.
É assim que tens vindo a conhecer-me tanto. Sabes-me de cor à custa das reviravoltas que dás no meu desejo mudo.
Hoje deixo-te bem espalmado, todo muito extendido, cobrindo-me toda.
Amanhã converto-te em sangue e alimentas-me ou mastigo-te e digiro-te e sais de mim.

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