Irmãos, na leitura de hoje, Job coloca questões essenciais: Onde está Deus? Porquê todo este sofrimento? Qual é o verdadeiro sentido da existência?
Job não merece sofrer. Ele, um homem cumpridor das leis divinas, bondoso, um homem generoso e piedoso aos olhos de Deus. E o que foi que lhe aconteceu? Viu padecer a família, perdeu os bens, as terras e os rebanhos, ficou sozinho no mundo, perdeu tudo.
Começou pois a questionar a origem da dor, e a verdade do Senhor, que o castigou sem razões, que o quis pôr à prova sem aviso e sem argumento.
Os antigos acreditavam que Deus retribuía aos justos e castigava os malvados. Mas Deus não recompensa nem amaldiçoa, Deus simplesmente está connosco.
No meio da sétima fila está de pé uma senhora de meia idade. Denuncia-se mendiga pela aparência e doente pelo comportamento. Mantém-se hirta apenas pelo apoio dos braços na cadeira da frente, torce o pescoço para fazer subir o queixo, enquanto o olhar se mantém em frente. Fixa o padre, e respira concentradamente tentando evitar os espasmos.
Veste várias camadas de roupa velha e rasgada, cheira mal e perdeu já qualquer feminilidade possível num corpo de cinquenta e muitos anos.
As perguntas que Job dirige aos céus são as mesmas que fazemos ainda hoje. Qual o sentido do mal? Qual o fundamento de estarmos aqui? Porquê tanto sofrimento, tantos inocentes a morrerem na rua e crianças a serem vítimas de crimes e da fome e a violência a perfurar as almas de tanta gente benélova?
Passam dez minutos das onze horas da manhã. Entro e ouço a voz do pregador, lenta, compassada, cerimonial e moralizante, num timbre grave e um tom roufenho, baixo. É uma voz de braço apoiado no púlpito, dedo auxiliar do discurso apontado ao tecto e olhar quase ausente, mecânico mas severo.
A meia idosa lança um ruído surdo gutural. Tourette, diz-se. Rosna como um cão, ladra, resmunga alto, cobre o nível de voz do padre durante a homilia e inquieta os presentes, que se contêm de olhar.
Porquê todo este sofrimento? Onde pecou? Porquê esta existência incómoda, incomodativa? Permanentemente, esta mulher vive numa noite escura, iluminada apenas pela fé cega do desespero mudo que é estar-se irremediavelmente louco.
É uma igreja barroca, marcada pelos desastres naturais. As paredes permanecem entre a vida e a morte, uma espécie de purgatório da arquitectura.
A perda denuncia um terramoto e um incêndio, ambos escavados numa alma medieval, deixando cicatrizes de uma dor como a de Job.
Tudo o que lhe resta é a confiança em Deus. Lembra-se do exemplo de Jesus, que quase no final da vida se julgou sozinho, chamou pelo Pai e lhe suspirou: Meu pai, porque me abandonaste?
E Job acredita. Tem fé. Espera que a mão do Pai venha em seu auxílio, enfrenta o mal com coragem e humildade. Faz-se servo. E faz-se servo de quê? Da vontade de Deus. A dor, irmãos, não é mais do que a prova divina de que somos humanos, de que esta vida é transitória. E é a forma como soubermos suporta-la que nos abre as portas ao mundo eterno, à verdadeira existência, sem mácula.
Ainda assim, parece ausente. A expressão cavada de rugas é indecifrável e o corpo oscila ligeiramente para a frente e para trás. O cabelo frondoso muito escuro da sujidade core-lhe a testa e o olhar. Cala-se por momentos, inspira pesadamente e volta aos berros: um cão, um autêntico cão. Ponho-me a pensar que deve ter vivido todos estes anos com um animal desses, ou que foi um que a pôs doida, ninguém fica assim sem fundamento, Deus não pode oferecer demência sem razão. Ouço a homilia. Job.
A Madre Teresa de Calcutá, serva das servas, também ela passou pela Noite Escura. Sofreu uma crise e escreveu: "Onde está a minha fé? Mesmo aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé." E desta forma insistiu, perseverou na sua missão de ajudar os pobres, fez como melhor soube, e foi beatificada pelo Santo Papa.
É esta a postura que devemos assumir todos os dias, caros irmãos, sermos como Job, persistentes, crentes, serventes de Deus.
Para os gregos o serviço era uma ideia repugnante, porque punha o homem numa posição de submissão, e ele devia dominar toda a terra, tudo e todos, porque era para isso que pensavam ter nascido, para se aperfeiçoarem através do conhecimento.
Para Jesus, no entanto, o serviço é uma resposta a Deus. Devemos amar o próximo, ser-lhe útil e fazer-lhe bem, porque é ele o rosto terreno de Deus.
A fachada é simples e a planta em cruz latina, pesada cruz percorrida em pena pelo chão molestado. Tem apenas uma nave, majestosa, ainda a transpirar barroco, alta, imponente. A pedra das colunas parece ter sido comida às dentadas pelo tempo, ou pelo fogo. Nas paredes e no tecto estende-se o rosa carne da mármore que contrasta com o preto cinzento das partes ardidas.
A talha dourada pontua a decoração com esplendor e brilho, como diamantes num rio lamacento, ou como os dentes de outro nas dentições envelhecidas.
E é tudo imponente, sente-se a verticalidade e o assombro daquilo tudo; uma casa de lembranças, uma casa que se mostra visceralmente.
A doida cala-se de novo. Esqueço-a por minutos e ouço o orador vestido de branco e dourado que contrasta com a escuridade da igreja. Ao cabo de 5 minutos sem presença estrepitosa, procuro-a e descubro-a encostada a um painel de S. Domingos. Calada, emudecida pela fé, penso, abrigada na pele protectora do santo. As pestanas repousam junto às bochechas, agora sim treva serena.
Ao longo das paredes habitam os santos em altares singelos, enfeitados com flores ora artificiais ora naturais, e desmesuradamente pequenos para a altura da igreja.
Do lado direito dos braços da cruz, ostenta-se um Cristo em tamanho maior que o real, que me fita nos olhos o seu olhar de provação. Foi desenhado em traços depurados, e enquadra-se no arco da parede com grandiosidade, a mais de três metros acima de mim. Olho-o com respeito e sinto o poder do símbolo, os braços abertos a convidar-me a ter fé, carinhosamente propondo-me entrar no seu reino.
Do lado esquerdo, está exposto o Senhor dos aflitos. No fim da missa, os fiéis deslocar-se-ão até ao seu altar, tocar-lhe-ão nos pés de madeira já sem tinta de tanto serem cingidos, fecharão os olhos e agradecerão, pedirão ajuda, milagres, fé de Job.
Deste modo Deus estará sempre vivo dentro de nós. Seremos nós a prolongar os milagres que ele fez. Se tivéssemos dentro de cada um de nós uma migalha da fé que Jesus teve, também nós seríamos capazes de curar. É isto que devemos compreender, é este o sinal para os que estão longe de Deus, a fé em algo maior, numa vida cheia de sentido e plena de êxtase.
Ela sai da beira do painel e pára ao pé da estátua de S. Domingos no lado direito do altar. Pousa-lhe a mão nos pés, carinhosamente, com uma viveza respeitadora, temente. Baixa a cabeça e reza. Ajoelha-se e benze-se. Sai de manso pelo corredor lateral e abandona a missa com a impiedade com que alguns abandonaram Deus.
E por fim, deitado sobre todas as camadas de intensidade deste lugar, o som do órgão. Os tubos ecoados nas fendas abertas na pedra. Hossana nas alturas.
«Não vive o homem sobre a terra como um soldado?
Não são os seus dias como os de um mercenário?
Como o escravo que suspira pela sombra
e o trabalhador que espera pelo seu salário,
assim eu recebi em herança meses de desilusão
e couberam-me em sorte noites de amargura.
Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’
Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’
E agito-me angustiado até ao crepúsculo.
Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear
e desvanecem-se sem esperança.
– Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro
e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».
Permaneço sentada tranquila diante dos cenários de dor: uma personagem demasiado humana, uma igreja torturada pelas calamidades, uma mulher mergulhada em tresvario. Job, jobs de pedra e de pele. E um evangelizador, imune, ensinando dor.
A luz quando entra explode no ar frio e amplia a crueza do espaço, torna-o maior, mágico.
Aqui sentada, numa cadeira cristã, invade-me uma sensação de conforto, de genuinidade. A memória de todos os Domingos a que assisti à eucaristia, rezei com convicção, tomei o corpo de cristo e repeti:
Senhor, não sou digna da tua morada
mas dizei uma só palavra e eu serei salva.



_
