
Alzira recebe-a bem disposta, perguntando pelo dia, como correu, se ganhou no pingue-pongue, se aprendeu a nadar. João pensa no quão especial é o modo como a mãe trata a filha, como lhe vai limpando a baba enquanto ouve atenta as histórias aos tropeços que ela lhe vai contando. Pensa que fizeram bem não ter outro filho, que aquela merece a atenção toda, e que cada esforço que fizeram foi bem feito. E que a Paula tinha vindo parar a boas mãos, gente séria do campo, capaz de tudo pelos filhos. Que eles lhe deram tudo, e se não fosse o meio pequeno e atrasado em que viviam, para além do carinho até estudos lhe teriam dado.
Paula pergunta:
- Ó mãe, que foram aqueles barulhos de manhã antes de eu sair, lá em cima no sótão?
- Oh, são as portas lá em cima que precisam de óleo, e também devíamos mudar os canos, não é, João? E os estrangeiros estão mal habituados, no país deles é tudo novinho em folha, e então reclamam muito. Tenho de ir lá cima pedir-lhes desculpa.
Alzira, João e Paula jantam calados perante a televisão. Paula ainda tenta desliga-la, diz que não gosta de comer a ver os outros sofrer, a mãe repete sempre que o mundo é assim, que violentas são as coisas que ela vê no cinema. E assim ficam, a mastigar o peixe entre guerras e assaltos, a saborear as batatas com dentadas ora ensanguentadas ora intriguistas.
O telejornal demora mais que o jantar, mudam-se para o sofá automatica e lentamente. João é sempre o primeiro a adormecer, Alzira lava a louça sem fazer muito barulho e Paula, Paulinha, que amanhã irá a cantarolar até à ponte mais próxima, fechará os olhos castanhos e empurrará o corpo leve para o leito do rio, deixa-se agora estar mais um pouco no sofá antes de passar pela casa de banho para se lavar.
Deitam-se os três. Paula apaga a luz do tecto e acende a luz de presença, a mãe dá-lhe um beijo na testa, o pai arrasta o sono até ao quarto e deita-se de costas para a mulher.
Ainda ouvem no quarto de cima a volúpia dos hóspedes, mas fingem um para o outro serem os canos e as portas a ranger.
Isabel e o João, umas casas acima, continuam a ler, enquanto o estômago digere as nabiças. Antes de se levantar para fazer um chá, ela comenta:
- Sabes que a D. Alzira desdenhou as nossas idas tão frequentes ao restaurante? Deve ter-nos achado muito burgueses. Sabé lá ela o que é o stress da cidade!
Alzira saiu à rua já ia avançada a manhã, com o molho de nabiças entre braços. Encostou a porta de casa e respirou o ar quente de Agosto.
A primeira coisa que se lhe impôs nos ouvidos foi os gemidos do casal estrangeiro estadiado no sótão da casa por um preço simpático. Vinham dos países ricos, e Alzira tentou encarar a gritaria como algum reflexo de civilização e deu-se ao luxo profano de sorrir perante a lascívia alheia. Se aqueles sons fossem dos vizinhos cristãos, António Carpinteiro e Maria Hortelã, a história tomaria outras proporções. Os estrangeiros de nomes impronúnciáveis e carteiras recheadas de notas de cem são afinal uma visão do progresso: se eles passam o fim da manhã a medir o peso do corpo do outro é coisa que não diz respeito a qualquer português do campo, onde a honra acima de tudo (acima de qualquer libido) se faz cumprir. Eles são afortunados, nós somos honrados, pensa. Mais a mais, eles deixam sempre gorjeta, que paga bem a esterilização dos lençóis. Ao pensar nisto, Alzira riscou com uma pedra a primeira linha do que dizia na tabuleta e ficou apenas: chambres / rooms.
Saiu à rua, encostando a porta, vai levar as nabiças à nova vizinha que vem da cidade e acabou de comprar uma casita ali ao lado, para transformar em refúgio de férias.
- Bom dia Dona Isabel.
- Olá Dona Alzira, que belas nabiças aí traz!
- Vim cá trazer-lhas para a senhora cozer, são muito fresquinhas, ainda há bocadinho estavam ali no quintal a apanhar sol, hoje faz um calor que não se pode, eu até nem devia arranca-las, assim quentes sentem mais, mas tinha que ir ali ao clube e assim a Dona Isabel já pode contar com elas para o jantar mais logo. Agora para o almoço é que não vai dar, estão muito quentes, deixe-as na pia em água que vai ver como elas ficam boas.
- Oh, muito obrigada, Dona Alzira! Eu para o almoço também não preciso delas, até já estava de saída para o restaurante.
- Ah mas ainda não tem o fogão a funcionar? Olhe que lhe posso emprestar um fogareiro de dois bicos de gás que tenho ali parado, só o uso no Natal para as pencas.
- Não, não se preocupe, o fogão já está pronto, nós é que estamos de férias e queremos descansar.
Alzira volta costas indignada, resmunga que estes da cidade têm ido ao restaurante todos os dias, e agora confirmada a suspeita de a cozinha já estar operacional, continua sem perceber como é que se pode querer uma casa de férias no campo se depois é para ir comer ao restaurante. Estrangeiros e citadinos, venha o diabo e escolha.
Dirige-se ao clube rodando lentamente a anca da esquerda para a direita, é uma bacia generosa e gasta, precisa do seu tempo para vencer o espaço. Enquanto caminha, limpa a terra por baixo das unhas às pontas do avental, que do avesso serve também para secar o suor da testa.
- Olá bom dia!
- Bom dia, Alzira, como está hoje?
- Cá vou andando, como Deus quer.
- Toma alguma coisa?
- Não, vim cá só deixar o dinheiro para a miúda vir jogar o pingue-pongue de tarde.
- Ah muito bem. E como vai ela?
- Como sempre, está lá para a casa da minha irmã que comprou uma piscina daquelas de plástico e a convidou para ir lá hoje.
- Continua com aquela conversa de se matar amanhã?
- Ó mulher, pare lá de perguntar isso todos os dias! Mais chata que ela só você. Preocupa-me é esta cruz de ela não poder ir para a escola, a câmara nunca mais arranja lugar para os deficientes, dizem que é o ensino especial, mas a Paulinha não é mais que os outros, quando muito é menos, que tem aqueles atrasos na cabeça, agora especial é que ela não é!
- Cá por mim deviam deixar de a tratar por Paulinha. Ela já vai nos 14 anos, vizinha!
- Oh, nem me fale, eu quando era nova dizia que me metia num frigorífico quando os meus filhos entrassem nesta idade, e só saía de lá quando fossem grandes. Não é que fiquem mais espertos, mas ao menos já podemos culpa-los. Na minha altura não havia cá isto da adolescência, a gente era criança e depois tornava-se adulta. Mas também a Paulinha com este problema tanto faz a idade que tem, é mais para eu saber há quantos anos carrego esta cruz.
- Oh, mulher, não diga isso, ela ultimamente até tem andado muito bem.
- É, isto do desporto faz-lhe bem. E o pingue-pongue é bom, é só acertar na bola, o João queria que ela fosse nadar, mas ela lá consegue nadar: se ela não tem juízo na terra como é que pode ter na água?
- Olhe, fazemos assim: eu vou falar com o meu chefe da sua situação e ele vai deixar-me pôr em prática aquela ideia que já me anda a matutar há uns tempos: você inscreve a Paula e paga ao mês, fazemos um preço jeitoso, mais barato que pagar todos os dias, e assim ela pode vir sempre que quiser.
-Esta bem, obrigada, isso é muito boa ideia. As finanças andam difíceis, o João vende pouco e gasta-se cada vez mais. Quando tiver notícias diga-me.
Alzira deixa duas moedas de cinquenta cêntimos em cima do balcão, ainda as revira para lhes ver a nacionalidade, que é a única vantagem que vê nos euros, as moedas terem todas coroas diferentes.
A chegada a casa para fazer o almoço coincide com a do marido que acaba de regressar da volta da fruta.
-Correu bem, João?
- Não correu nada bem, mulher. Está meio mundo de férias e eu não consigo servir os estrangeiros porque não sei a língua deles. Hei-de pedir ao teu Ivo para me ensinar ao menos alguns nomes: maçã, laranja, banana, couve, tomate, cebola, alface, euros, obrigado.
- Isso vai ser lá para o dia em que ele vai escrever "quartos" em espanhol ali na placa à entrada. Anda, vamos esperar sentados que está calor.
- O almoço está pronto?
- Está quase. Deixei a carne no forno enquanto fui ao clube.
Alzira e João almoçam a vaca barrosã com calma. Entardece devagar, os rebanhos voltam obedientes aos aidos e os hóspedes e os da cidade aos sofás, onde passarão o resto do dia a ler.
Paula volta do clube animada, saltitando o caminho todo até casa trauteando uma ladínha antiga. Amanhã Paula vai atirar-se da ponte. Mas ninguém sabe, ninguém pode saber.
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