Lúcia, freira, 63 anos, alta, enrugada, curvada e alva, vestida de branco e preto como imaginamos todas as freiras. Mexe com a colher de pau um tacho com açúcar e água. De va gar.
Ponto de calda fraca. Ponto de cabelo. Ponto de pérola. Ponto de fio. Ponto assoprado. Ponto de rebuçado. Ponto de bola rija. Ponto de caramelo.
Cheiro a muito doce.
Lúcia, de costas, no fogão, mexendo vagarosamente o cotovelo e o pulso esquerdos. Ritual diário, doçaria de cumplicidade conventual.
Pensa no amor que nunca soube, que nunca provou com os dedos como prova os ovos moles, quentes.
Sabor tão doce.
Um amor que fosse espesso, que engrossasse com o tempo como o açúcar no lume. Que borbulhasse compassado, formando bolhas beijos. Ganhasse cor quando se lhe mexesse, que escladasse a língua, que se comesse em infinda doçura.
Amor-caramelo.
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