Aida sempre achou que tinha umas mãos ingratas. Demasiado vincadas nas expressões, e especialmente feias nas pontas dos dedos, redondas e inchadas como as dos sapos. Com a idade o defeito foi-se ampliando, e não havia forma de impedir que aquilo um dia viesse a tornar-se um pretexto para sofrer.
Porque Aida tinha uma inclinação natural para sofrer, para provocar dor em si mesma, e em fazê-lo por nada.
Ontem sentou-se na secretária do quarto e com um x-acto aberto cortou lentamente as pontas dos dedos, na parte de baixo, sem atingir as unhas. Esforçou-se por desenhar o dedo que queria, delgado e que terminasse antes do fim da unha. Foi escorrendo sangue e, uma a uma, as meias esferas cairam sobre a madeira quentes e anelantes.
Ao quarto corte Aida parou para sentir. Era a primeira vez na vida que sentia várias dores paralelas: todas iguais mas em pontos dissemelhantes. A constatação desta novidade animou-a.
O quinto dedo tinha um anel. Uma mancha de sangue no lugar de um diamante fez Aida comover-se. Tirou o anel com a mão intacta e fitou-o. Depois cortou a pontinha do dedo, que era o mindinho, e suspirou. Repetiu a operação mais cinco vezes e depois dez vezes a ligadura à volta dos dedos para o sangue estancar.
Hoje de manhã acordou, tirou as tiras de pano e com um sorriso colocou o anel, sem o limpar.
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