sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Estrogéneo



É curioso que viesse a pensar em ti quando ao encimar as escadas li a placa de mármore na parede: Travessa dos Brunos.
A casa que a alardeia foi recentemente pintada de cor-de-rosa. Mas cor-de-rosa não é cor que te defina em mim, Bruno: preciso de um tom mais lascivo, salivar, que se aproxime do lascivo do olhar que me lanças e da libido que fazes correr-me na carne. Um vermelho, um encarnado, um sangue, fogo, umas unhas muito compridas, pernas abertas, peles sobrepostas.
O jeito que tens para me colorir vem-te do sexo e seria sexo que me estenderia feita papel branco, o branco dos beirais e perfis das telhas da casa na Travessa dos Brunos.
Se te apanhasse nu, Bruno, desprevenido, Bruno, que nunca estás, Bruno, far-me-ia toda travessa. E seria de vermelho muito vivo que te mancharia: vermelho-coxas, vermelho-pescoço, vermelho-aperto, vermelho-arranhar, vermelho-abrir-morder-gemer-
desmaiar.
Sem mimos e sem brados, Bruno, sem me explicares mais que o teu primeiro nome. E com pouca luz, apenas a luz que deixasse descoberta a maior parte do que vejo em ti e que é ainda meu: assim novo como me és posso pintar-te à minha maneira.
Hoje serias, Bruno, um corpo esvaziado de voz e de cor, corpo que eu gastaria até ficar: vermelho.

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