A Sr. Generosa faz bolos, e para uma freguesia inteira ela é a Senhora dos Bolos.
Tem uma garagem transformada em pastelaria há dezenas de anos. Tem um filho cego, não tem um homem porque ele a deixou e desde aí sempre teve este ofício pouco rentável. É impossível saber se foram as mãos que se treinaram demasiado rápido ou se o dom tenha estado todo esse tempo à espera, mas o que é certo é que os bolos são inenarravelmente deliciosos.
Já se tentou por demasiadas vezes descobrir-lhes o segredo mas sempre sem conlusão: as receitas ela publica-as descomprometidamente, os ingredientes são comuns a muitas outras pastelarias, não há nada controlado artificialmente em todo o processo e nem um extremo carinho pode justificar tal delícia, que por carinho já se criaram muitos fazedores de bolos e muitos com bem mais anos de empenho e emoção.
São as mãos da Sr. Generosa. Irrepetíveis. Incansáveis: já quase todo o corpo desta mulher de 63 anos se cansou, o cancro do estômago cuja cura se fez compensar com desiquilíbrios de todos os outros órgãos, a visícula, a tiróide, as cataratas, os joanetes e os diabetes, a cegueira do filho o cancro da neta as más memórias do casamento a falta de dinheiro, tudo acusado na sua pele sexagenária, nas rugas limpas do seu rosto alvo, na curvatura do porte, na lentidão do andar.
As mãos da Sr. Generosa, espessas velhas sabidas, pesseiam-se pelos bolos sem hesitação partem simetricamente os ovos sem fazer ruído e separam as claras das gemas mais rápido que um pestanejar. Provam o creme dos ovos num impulso partem o chocolate com asserto e amassam a massa afirmativamente, autonomamente: aquelas mãos vêem e ouvem e cheiram e tocam e provam.
As unhas estão sempre pintadas de cor-de-rosa vivo, bem pintadas pela cabeleireira, mas manchadas pelo trabalho, escuras das nozes e carcomidas da pressa. Não há, no entanto, queimaduras de forno feridas das facas nem nódoas dos desajeitos. São mãos que sabem o que fazem, sempre souberam, nunca erraram.
Desde que sei andar vou pelos aniversários buscar o bolo encomendado à Sr. Generosa. Há muitos anos que os faz sempre iguais e ninguém se atreve a porpor-lhe que lhes altere a perfeição. Quando havia crianças na família eram sempre formas divertidas de flores ou bonecos ou estrelas ou nuvens. Hoje, pela elegância da idade, são sempre redondos.
Quando chego o cancro e a tiróide e os desgostos da Senhora dos Bolos têm sempre um sorriso para mim. Os dissabores da sua vida pouco generosa só os sei em braves desabafos ou por terceiros. É uma pessoa com a missão cumprida neste mundo, há-de sabe-lo bem, e da perda que será um dia aquelas mãos extinguirem-se. Recebe-me sempre com entusiasmo, tira o bolo do frigorífico e pesa-o, pergunta-me quantos anos são e procura os números nas velas, como já não sou criança não me dá das teimosas, acrescenta uma faísca, e diz-me quanto lhe devo.
É um bolo de duas camadas de pão de ló intercaladas por uma fina massa folhada e creme de ovos, creme que também o reveste por baixo do chantili de morango que desenha ornamentos singelos nas beiras e escreve no topo: Parabéns Dulce. Há variantes: Muitas felicidades Dulce; Muitos parabéns Dulce; Dulce 25 primaveras.
O meu nome fica extraordinário em cima deste bolo, nunca foi tão justo, observo-o e esqueço-o como nome e reconheço-o como legenda do bolo: dulcíssimo.
Nunca encontrei quem não gostasse dos bolos da Sr. Generoisa. Há cinco anos fecharam-lhe o modesto estabelecimento que era ilegal, foi denúncia insuspeita de uma vizinha, e agora o segredo estende-se a excepções sortudas como a da minha família. Deliciada, rendida família.
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