terça-feira, 2 de setembro de 2008

Verdes

Neste sítio nada fica por fazer. Porque nada há a fazer. A vida escorre pelos dias que se estendem em montanhas severas em redor de um rio calmo. Que mais é preciso fazer?
Deixo-me mergulhar em lembranças, o futuro é demasiado irreal para ser pensado nesta imensidão de terra.
Aqui, do outro lado do tempo, lembro-me de tudo o que deixei por fazer até cá chegar. É assim que me reduzo ao que já devia saber-me: semente em solo agreste. Preposição de vontade. Embarcação ainda atracada no receio líquido de se perder. Sem esperança, demasiado rebuscada, a esperança.
Estou cá para me suspender nas horas que não passam. Fundir-me na terra e na água, nua, tornar-me verde. Por pouco não ser, negando tudo o que teimosamente construí. Tão pouco. Até cá chegar.
Quando eu voltar, estarás ainda aí. Nem a metamorfose do meu corpo em pedregulhos imensos seria capaz de nos separar. Sendo eu água, serias a superfície que em mim espelharia o céu. Sendo eu terra, tu raíz de uma urze.
Não tenho como separar-me de ti, fazes-me tanto sentido.

Sou capaz de jurar que já passaram dias e dias desde ontem. Espreguiço-me no não passar das horas. Sou um verde, sou o caminho entre todas as matizes do verde escuro ao verde claro ditado pela disposição das nuvens indispostas que materializam valores de luz na minha barriga. Ossos claros, pele escura: verdes. Abertas de sol entre as minhas pernas. Maus humores pelos ombros abaixo. E nos pés a diluição do monte em névoa, toda eu suspensa em memória.
No centro tu, abraçando-me em fogo lambendo-me a água serena.
Não há nada para fazer: suspendo-me em ti.
Quando voltar levo-te nos olhos o verde do que vi.

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