quinta-feira, 24 de julho de 2008

Tenho-te saudades do cheiro

Enterrei o nariz no teu cheiro e adormeci nele. Viajei-o num barco triste, em ondas calmas, pontos de pele ardentes. Quis tanto poder desenhar-to. Que não podes cheirar-te, não podes, e se eu pudesse desenhar-to, fazer-te navegá-lo, se eu pudesse

Entrei no barco e vi frutos exóticos guardados em caixas de cartão, flores azuis em cestos de verga, citrinos muito ácidos espalhados pelo convés ao acaso, por entre grãos enormes de sal amontoados e de areia lisa. Vi leões molengueiros mas sempre atentos, fitando a água, e mais além vi homens de pele morena do sol brilhante e do suor, musas vestidas de branco insinuando-se e crianças berrando brincadeiras inocentes. Junto à popa repousavam flamingos quentes alheios das garrafas de vinho maduro vazias e caídas na madeira húmida.
Atravessei o convés em direcção à cabine onde espreitando descobri partituras de assobios, semínimas preguiçosas que iam caíndo em terra molhada, palavras imperceptíveis anunciando rituais de tortura.
O vento espreguiçou-se na vela do teu barco tristonho e eu vi nela sonos ternurentos, um beijo de bom dia receoso dado ora no lábio superior ora no inferior, sobre a cama branca, imaculada de branca.
E ao chegar à proa, farejando-te mais um pouco, voltei a olhar para trás e a popa era uma ânsia ofegante, a hélice uma barriga macia, o casco umas costas longas, a vela um suspiro de desejo.
Abandonei-o respirando muito devagar, fundo, absorvendo cada estímulo como poesia, entre nevoeiro ténue, as formas, as cores, os sons. E acordei suavemente do teu pescoço. O teu cheiro ficou mergulhado a percorrer o mar do meu corpo até voltar adormecer.
Um dia desenho-to.

_
 
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.