segunda-feira, 14 de julho de 2008

Inspiração

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Expiro-me. Inspiro-te.

Chegaste e mergulhámos um no outro como se fossemos um mar de gelado de maracujá. Amaste-me com tudo aquilo a que eu tinha direito, repetindo-me o nome, recapitulando tudo aquilo que sabes sobre amar. E gritaste no fim, como se fosse preciso que toda a gente ouvisse, que todos soubessem o abraço que demos, quente, apertado, azul. Foi tão bom estar assim, não querer mais nada, querer só entrar por ti dentro, de cabeça, pela garganta, e acomodar-me no teu sossego, emaranhar-me no teu colo, perder-me os sentidos, derrama-los em ti. Sem falar, sem pensar, mas sempre sem largar, nunca mais largar, abraçar para sempre, sorrir para sempre, ser assim para sempre, viver aqui para sempre.
Depois deixámo-nos ficar, a saborear-nos mais um pouco, num abraço maior que tudo, que nada, só um abraço, um berço, as unhas a marcar-te a pele de saudade, de querer.
Escondeste a cara de mimo debaixo do meu pescoço, como os gatos, fugindo de tudo o resto, como se eu fosse uma concha. E quando voltaste o quarto tornou-se numa nuvem branca espessa que nos sustenteve na tarde, a ouvir a música demorando mais que nós. Ficou tudo branco, vaporoso, imenso.
Eu sempre soube que quando viesses iriamos admirar o mundo. Depois de ti não haveria retorno, só branco, grosso, seco. Não haveria lençóis nem chão nem o cheiro a sexo nem a luz do candeeiro nem os copos de porto nem a casca das laranjas despidas comidas gomo a gomo nem o amarelo do casaco aberto botão a botão nem o roxo dessa t-shirt nem os cabelos que caíram quando mos puxaste, só a música e o abraço.
Enrolei-me em ti, alheada do cenário, a perna esquerda na tua cintura, apertei-te o rabo contra a minha coxa, pus um braço por cima e outro por baixo das tuas costas, dar a volta ao mundo e fechar, enlacei os dedos no fim para ter a certeza que estavas bem preso, tão preso e ainda assim não chegava, sentiste-te no direito de me esmagar o pescoço com a cabeça, esse cabelo quase a fazer-me cócegas, os pés frios encostados uns aos outros ainda não se cansaram de se conhecer, os meus pés ainda não acreditam na tamanha beleza dos teus, gotas de suor que não sei de quem eram, sussuro de nós a chorarmos por não haver maneira de escapar, por não querermos, porque a música é enternecedora, arrepia-nos, e nós que acabámos de nos conhecer, o abraço foi do tamanho do céu mas não nos chegou, arrepiámo-nos e lembraste-te do que te disse ontem:
às vezes bem me apetece
saltar-te em cima até parares de me elogiar
tapar-te essa boca com força
e foder-te até chorares
só por teres aparecido assim na minha vida.


Inspiras-te. Expiras-me.

O branco encheu-se de um suspiro surdo, enroscado na nossa saliva, fazendo acreditar que isto não seria o fim mas o inevitável começo. Digo: isto é tudo mentira. E tu dizes: não faz mal, fazes-me bem.
E nisto o sítio desfaz-se. A casa num amontoado de ruínas como aquelas abandonadas à beira do rio, o telhado voou, alicerces à mostra, paredes escadeadas irregularmente, cimento desfeito pelos cantos, um ou outro azulejo intacto, algumas janelas ainda janelas, buracos que tornaram a casa transparente, vê-se para todos os lados, as portas partidas ao meio deitadas nos vestígios dos tapetes, o chão coberto de folhas que caíram do Outono, luminosas no meio de tanto baço. Ainda se percebe a estrutura, três divisões em baixo, dois quartos enormes e um esconderijo em cima. À volta só vemos o céu e as árvores, aspiramo-nos um ao outro e não sentimos mais nada. Nem frio, nem medo, nem esperança, nem eu nem tu queremos mais que isto, se o mundo desaparecer melhor.
Olhamos um para o outro e franzimos as testas, começa a ficar frio, a noite a entrar pelos ossos e a palidez pela pele. De repente sinto a vida aterrar-se sobre mim, consciência de tudo: fobia à rotina, dores nas costas, medo
de cair, vergonha dos erros, orgulho das lições, conversas inúteis, amargura de saber amar, alegria das flores, cheiro do nevoeiro, cor dos teus lábios, sítios gravados na memória para sempre, sempre à espera que chegasse alguém para me salvar, eu para me salvar, que mais ninguém o pode fazer, coragem para me salvar. E contigo aqui é tudo novo, e tudo isto ataca-me sem norte, fico estátua, faz de mim o que quiseres, as tuas mãos tão quentes, os teus pés tão frios, neste abraço, faz de mim o que quiseres. Se eu fechar os olhos, quando voltar ainda cá estás? Dizes: Fomos sempre imaginação. Caia o que cair, pertencemo-nos.
Relaxo, ouço o vento nas sementes dos jacarandás, dorme comigo, dorme.
Os nossos corpos cada vez mais brancos, quietos, esquecidos, a desaparecer como a casa, a congelar-se neste momento, vires abandonou-nos de tudo, permanecemos aqui guardados na nossa história, um tempo e espaço só nossos, numa gaveta do mundo, forrada a memória, branca. Para sempre viver aqui.

Eu inspiras-me, tu expiro-te.

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