Roçar-se no outro em prova de carinho, ou em bajulamento dissimulado. Encaixar a cabeça num qualquer canto de outro corpo, fazer força para entalhar na curva dos braços ou na cova que é o pescoço. Arranhar o peito e as costas com as unhas afiadas, imobilizando. Levantar o pescoço para os mimos e abrir o corpo para os festejos. Esticar-se ao sol quase até derreter. Empinar o nariz impermeável a qualquer cedência. Limpar a pele secamente, asperamente, minuciosamente. Arregalar os olhos quando se quer ver bem o que é. Gostar do relento da noite, das sestas da tarde e da calmaria dos fins de semana. Ter um espaço só seu, sem interferências, imponentemente. Rebolar na erva para coçar as costas. Fazer ouvidos moucos a coisas importantes com a maior lata do mundo. Adormecer sem mais nem menos, sem sequer ser preciso deitar. Desconfiar à partida de quem quer que seja, a prudência acima de tudo. Arranjar pacientemente a cama antes de se deitar para ter a certeza que vai ser confortável. Usar o corpo como um elástico, em mil posições, em movimentos astutos.
Lamber o mundo inteiro escrupulosamente, e pisa-lo subtilmente até ele ceder.
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