domingo, 9 de dezembro de 2007

Clementina no supermercado

Clementina entra no hipermercado deslumbrada. A Avó pedira-lhe mil vezes para se manter sossegada, dar um passo de cada vez e não abordar ninguém. Vai dentro do carrinho, em pé, as mãos no bolso do vestido, os olhos arregalados e a boca entreaberta.

O hipermercado! tomar atenção não falar com ninguém dar uma passo de cada vez ficar sossegada olhar com atenção uau tantas cores tantas coisas tanta gente será que posso sair do carrinho e desatar a correr como nos filmes não devo poder a avó pôs-me aqui para eu não me portar mal roupa tanta roupa tem roupa pra mim quero ir ver estou a ficar com calor tantos colares pulseiras tantas malas cachecóis tem tanta coisa parece a loja onde a mãe me levou uma vez e tem roupa para os papás podia levar uma prenda para eles não eles não podem saber é outra regra eles não podem mesmo saber tenho de me manter quieta a avó está cheia de medo que eu salte para o chão quero ir para o chão e há plantas e roupa para a cama e comida para o Soneca a esta hora ele deve estar a apanhar sol à janela e muitas ferramentas quero ver aquelas ferramentas quero comprar todas para brincar aos construtores quero ser construtora um dia não quero ser bailarina será que há coisas para bailarinas?

-Avó, podemos ir ver se há coisas para bailarinas?
A avó está tensa, nota-se na sua expressão, Clementina é explosiva e imprevisível, pode saltar do carrinho, abordar toda a gente, destruir as prateleiras e subir para os expositores das promoções, desatar a berrar ou desaparecer sem ela sequer perceber.
-No hipermercado está tudo por ordem, Clementina, e é com ordem que temos de o visitar, a secção de desporto é mais ao fundo.
Uma prenda é uma surpresa, e saber-se o que se vai receber reduz o prazer. Mas neste caso, embora estivesse planeado, a admiração só irá acabar quando acabar a prenda. A avó empurra o carrinho e Clementina olha em todas as direcções, o que somado ao seu tique nervoso do pescoço para a esquerda a faz parecer uma boneca articulada.

Ah e aqui há brinquedos tantas bonecas oh mas eu não gosto de bonecas e há vestidos e varinhas de condão e jogos e bóias para o verão e personagens dos bonecos que dão na televisão o Noddy o Marco o Super Homem tantos e há há há o Peter Pan!!!!

- Avó, olha o Peter Pan, avó, avó, avó!!! Olha!!! Ali!!!
Clementina está corada, as mãos suadas, dá pequenos saltos em cima do carrinho para fazer birra. A Avó agarra-lhe o braço e diz-lhe para ficar quieta que a leva lá. Dirigi-se para a prateleira, tira o único que estava fora da caixa e dá-lho. Clementina suspira e fica serena a conhece-lo.
-Vamos levá-lo para casa, avó!

Como assim não temos dinheiro para comprar temos de ter custa muito? ó avó, deixa-me levar o Peter Pan é tão pequenino tão bonito igualzinho ao verdadeiro avó que eu vi no jardim naquelas férias tenho de poder sair daqui vou saltar avó ó vês pronto!

A avó aperta braço da neta com mais força e fa-la chorar. Clementina chora e ela arrepende-se nesse preciso momento de a ter levado ali. Lembra-a do prometido e diz-lhe que assim não gosta dela e nunca mais a leva a lado algum.
- Não podemos pedir a esta senhora? E àquele senhor ali? Olha, avó, até tem fato, ele deve ter muito dinheiro, de certeza, vamos lá!

Se calhar a avó está demasiado furiosa que eu saltei do carrinho não me puxes assim pronto eu volto deixa-me eu volto olha vem aí a senhora do hipermercado que foi? não não se passa nada a minha avó pode gritar comigo porque ela é minha avó e a senhora quem é? queres vir comigo para casa? queres pois já sabia mas como é que vamos fazer isso não és assim tão pequeno será que cabes no meu bolso tenta encolher Peter Pan a ver se me cabes no bolso isso pronto agora fica aí calado que eu vou fazer o mesmo senão a avó castiga-me ela vai castigar-me eu portei-me mal saí do carrinho mas pelo menos agora já tenho companhia no quarto podemos sofrer o castigo juntos já podemos ir embora já vi o que é o hipermercado avó agora já podemos ir vamos fazer o meu bolo e esperar pelos pais para cantar os parabéns eles vêm este ano é este ano que eles vêm não é avó?



 
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