Maria, eras uma mulher cheia de graça. Lembro-me tão bem de ti sentada no adro, olhavas o longe como quem espera que caia alguma coisa do céu. Eu gostava de passar e sentir o cheiro do teu cabelo de alecrim. Gostavamos todos. Estavas sempre lá, todos os dias. Tinhas uma inocência que só se aguenta debaixo dos lençóis, de resto, para um homem, é insustentável. O senhor José demorava mil horas a subir as escadas e entrar a rezar no edifício. Balbuciava baixinho tretas da televisão, mas ele tinha jeito e fazia com que aquilo soasse a orações. Só para te ver, Maria, só para espreitar-te as coxas quando o vento assobiava. O nosso espírito estava sempre contigo. Eras bendita entre as mulheres, até ao dia em que, de tanto fitares, o céu caiu. Nunca mais foste a mesma, esse sorriso já não é inocente, o alecrim escapou-se do teu cabelo e a barriga começou a crescer-te. Uma mulher bonita não pode crescer na barriga. Na barriga crescem as mulheres feias, as nossas, não as que enchem os dias a mostrar as coxas ao vento. Eras bendita entre as mulheres, e todos esperavam que o fruto do teu ventre o fosse também. Mas naquele dia, que vamos recordar para sempre, tudo o que tinhas para mostrar era um serzinho pouco, uma desilusãozinha de ser, tímido, húmido, triste, feio. É feio, o teu fruto, Maria, e ninguém aceita que uma mulher tão bonita gere um fruto assim. Nenhum céu, por mais pesado que seja, tem o direito de descarregar a raiva dessa forma.
És mãe. Já não podemos sonhar contigo debaixo dos lençóis. Desceste ao mundo dos pecadores, nunca mais serás o anjo que em ti pousámos.
O senhor José nunca mais veio. Deixava-se ficar em casa a sorver a televisão, ou a ser engolido por ela, e balbuciava baixinho pequenos insultos a ti, Maria, enquanto de entretinhas docemente a embalar essa tua fealdadezinha. No teu colo, Maria, esse fruto do céu cinzento... se eu soubesse tinha mergulhado nele sem pedir licença muito antes do vento que te arrepiava as pernas.
Por isso decidimos fazer-te isto, Maria. Podes rogar por nós daí bem alto, de pé, presa no teu posto frio, roga por nós agora e na hora da nossa morte, porque nunca mais te queremos. Maria. Cheia de graça, eras uma mulher.
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