domingo, 9 de dezembro de 2007

Novembro

José larga a vida do campo, põe o melhor casaco e vai apregoar as castanhas roubadas aos ouriços e assadas debaixo de chuva. Mostra muitos sorrisos mas gosta pouco daquilo, ninguém fala e a rua está sempre suja. Consola-se com o cheiro do fumo que sai do assador e atrai os gulosos e os caprichosos. É delicioso, vale o preço da dúzia de castanhas, mas todos acham caro.
Só pensa na hora de ir buscar o neto à escola e partilharem o chá antes de ficar de novo sozinho. De resto a vida é aquela rotina cinzenta.
Há duas semanas deu por si a fitar a posição dela. Apaixonou-se por aquele charme distante, o sorriso bem modelado, o cabelo sempre naquela forma, o corpo que nunca vai envelhecer, a perfeição feminina.
Começou por ser um entretimento, mais tarde a sua única companhia, todos os dias ali pomposa atrás do vidro. Chamou-lhe Clarissa.
Ontem chegou a casa e sentou-se no banquinho junto à lareira à procura das palavras certas. Recortou com minúcia pedacinhos na lista telefónia e montou-os no papel.
Hoje o dia passou rápido, eram as últimas castanhas. Aguentou a carta no bolso e a ansiedade no corpo. À tarde prendeu o papel na montra, virado para dentro. Ela sempre imóvel.
A tua beleza enche-me os dias de força como se a minha vida fosse um sonho cor de rosa e quero poder tocar-te uma só vez e sentir-me dono do mundo.
Deitou-se a pensar na forma que teria o lençol se ela ali estivesse. Acordou a meio da noite e chorou por um abraço. A manhã trará uma melancolia sem fim.


Este texto está editado no separador de Novembro na agenda 2008 da Companhia do Eu.
-
 
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.