Eu sou o João. Lembras-te de mim? Provavelmente não lembrarás, já devem ter sido tantos os homens na tua vida, o mais certo é que nem os distinguisses dos que nunca viste…
De qualquer maneira, sabendo tu quem eu sou ou não, decidi escrever-te para te dizer que te deixo tudo o que tenho. Não é muita coisa: dois terrenos com cerca de um hectare cada um, uma casita aqui no centro, uma colecção de 732 moedas e uma barra de ouro.
Procurei na memória quem me tivesse preenchido mais de vida ao longo da vida e a única pessoa ainda viva és tu.
Sou o que chorou. Eu nem sabia que uma mulher podia mexer-se como tu. Foi há 23 anos, caramba, será que te lembras? Eras tão nova, e eu já velho. E chorei, tens de te lembrar ao menos disso.
Deixo-te tudo o que tenho. Foste a única mulher que me fez sentir inteiro, que me fez sentir a vida esgotar-me de sangue, que me deu matéria para um sonho que nunca mais acabou. Nem esposa, nem filhos, nem pais. No fim da vida tudo esmorece menos a imaginação.
Ainda me lembro do cheiro a jasmim da tua pele. Só isso deu-me meses de vida. Agora fica com tudo. Saberás o que fazer com estes bens, se é o teu espírito tão justo como o teu corpo, saberás.
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