A mãe Esperança vestia a filha Iris fervorosamente como se estivessem atrasadas para a escola. Mas não, a mãe era já bisavó e a filha trintona precisava de ajuda apenas porque o vestido era demasiado justo. E tinham pressa, mas não era para o autocarro e sim para o hospital. Entre soluços de preocupação da mãe, suspiros de contrariedade da filha e o ranger dos fechos éclair, o pai da mãe e avô da filha esperava em agoniosa dor que ambas fizessem de ambulância e o levassem ao senhor doutor.
— Escolheste o pior dia para este vestido, Iris.
— Os dias não se escolhem, mãe.
— Mexe-te, mas é. O homem ainda morre ali e eu não aguento com a culpa.
— Ele que chamasse a ambulância. Usam fardas largas tanto os enfermeiros como os bombeiros. E se corre mal a culpa vai ser por dentro e por fora, que até a lei ta faz carregar.
— Sabes que ele odeia entregar-se a desconhecidos quando está com medo, é assim.
— Ele está é nas mãos de Deus, não é? E conhece-o bem, por acaso?
— Iris, pára com isso. Não me admira que esteja a morrer, já viste como treme? Pronto, já está, vai buscar a mala e vamos embora.
— Sim, mãe.
Iris voltou costas e a mãe fixou os olhos no chão, cismática.
— Iris.
— Sim, mãe.
— Tens de estar preparada para que ele seja profundamente ingrato antes de morrer, querida. Sabes como ele é egocêntrico… o melhor será garantir que ele vai em paz.
— Então chama-lhe o confessor. Para o resto, preparou-me ele a vida toda.
— Sim. Despacha-te.
Iris ia sair do quarto, mas voltou à mãe:
— Mãe, não tens de te preocupar. O avô está bem, tenho a certeza; fica assim em pânico com qualquer coisa e incomoda a cidade toda. Começamos a fartar-nos disto, não é? Mas ele está bem. E se fica assim é porque gosta de estar vivo, não te esqueças disso todas as vezes que diz o contrário. Vamos.
Atropelaram a casa toda à procura das chaves do carro, pegaram no avô ao colo, sentaram-no no banco de trás e fizeram a estrada à maior velocidade que conseguiram. À porta do hospital, Iris encaminhou o avô e a mãe foi estacionar o carro. A recepcionista pediu os cartões, assentou os dados e indicou-lhes o fundo do corredor. Ainda a tremer, praguejando contra o médico de família, contra os enfermeiros da clínica de análises, os médicos quee forjam os resultados e a senhora da farmácia que garantiu que estava tudo bem, o avô mantinha a sua postura altiva e esbranquiçada.
Ao fundo do corredor ele entrou para uma salinha verde e demorou quatro horas e cinco exames a sair. Internaram-no. Ele não disse porquê, disse que ainda não lhe haviam dito e que teria de fazer mais alguns exames.
Para render Esperança e Iris, foi chegando o resto da família. No dia seguinte, vieram amigos e vizinhos.Os médicos respondiam evasivamente às perguntas sobre o caso e o avô olhava-os com repugnância. Mandou chamar o confessor, que pelo sim pelo não se tratasse já disso. Os familiares revezavam-se de três em três horas, dia e noite. A avó, retida em casa pela leucemia, rezava num silêncio desconfortável, como se já estivesse em luto. Acompanhava-a quem não estivesse no hospital.
Ao terceiro dia, morreu.
Foi Iris quem assistiu ao fim, já no seu quinto turno e quinze horas com o avô que a ensinara o odiar. Levantou-se da cadeira quando o sentiu estremecer. "Havia de ser logo eu. — pensou — que tão pouco me afeiçoei a ele, que tão pouco soube imitá-los e fingir que o queria. Morra ao menos em paz, e faça-se a vontade da mãe." O avô arregalou os olhos amarelos e raiados de sangue, olhou-a fixamente e disse na sua voz gasta e azeda:
— Não penses que deixei alguma coisa para ti, Iris. Estás aí à espera que eu morra mas vais ficar sem nada, percebes? Tivesses tomado conta de mim.
Iris abraçou-lhe as mãos já frias — "É pelas extremidades que começa a morte?", pensou — e falou num sorriso doce:
— Vá em paz, avô. Tenho estado à espera que morra precisamente para que não me reste nada seu.
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