terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Um mundo onírico fecundo

É meu costume embalar as dores diárias nas viagens dos sonhos. O que não sei resolver de olhos abertos, transfiro para os sonhos. Tenho sonhos e pesadelos sem fim. O de esta noite foi especialmente perturbador. São os piores, estes que se ancoram na realidade mais interior, mais profunda. Fazem sublinhados sobre o que passo os dias tentando esconder.
Acordei com o incontornável medo que estivesse a concretizar-se. Sabia que a primeira pessoa que encontraria ao acordar seria a minha mãe. Como estariam as suas mãos? Tive tanto medo que lhes faltasse carne, que tivesse cortado os próprios dedos, secamente, como eu tinha sonhado.
Levantei-me. O corpo ensonado recusou-se a ir para o banho. Era urgente ver as mãos da minha mãe, sabe-las inteiras, severas como sempre foram. A minha mãe podia ter cortado os dedos, a minha mãe anda tão chateada com a vida, amaldiçoa tudo o que faz, tudo o que toca. E os sonhos são assim, às vezes, prenúncios. Mesmo que não tivesse cortado os dedos, podia simplesmente ter-se cortado, ou ter simplesmente cumprido o símbolo daquele sonho que eu não sabia decifrar.
Atravessei o corredor com o medo que nos deixam no corpo os pesadelos.
Ela estava precisamente na divisão em que a imaginei, sentada na máquina de costura, de costas para a entrada do quarto. Estava serena, via-se-lhe a respiração no algodão branco do casaco. Assim de costas não lhe via as mãos, e ela estava tão quieta que parecia pesar toneladas sobre o assento. A máquina de costura parada não fazia qualquer som. O ar estava especialmente brilhante, era uma manhã muito fria de geada nos campos. A luz intensa envolvia os contornos da minha mãe em abstracção desesperante.
Antes de falar ou entrar, detive-me. Deteve-me o horror do sonho: os dedos cortados silenciosamente escorrendo sangue e a mãe sem esgar de dor,
sem reacção.
Enquanto eu inspirava, passaram-se horas nos cabelos brancos da minha mãe. Os meus olhos ensonados ainda não eram capazes de focar com precisão. Era ainda possível que eu estivesse a sonhar, era. E estar prestes a assistir à auto-mutilação das mãos. Mas os sentidos já estavam tão despertos, enfrentando a realidade… A realidade é quando estamos acordados? Então e neste estado intermédio entre o sono e a vigília? Como estão as mãos?
Não tive coragem de avançar. Tentei dizer Bom dia para lhe ver um movimento, não saiu palavra. Tentei de novo, pensei o quão absurdo era ter aquele medo, quis recuar para o banho para despertar definitivamente. Nada. Petrificada diante da imagem da minha mãe serena, de costas. Eu descalça, com frio, com medo. Ela então sentiu-me, como sentem sempre as mães. Disse Estás aí?
Bom dia!
Não respondi, fixei-lhe o olhar nas mãos: densas, enrugadas, escuras; inteiras.

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